terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Os Ciclos da Vida

Percebemos nossa existência pelas passagens da Terra em sua rota infinita na elipse ao redor do Sol. É estranho dizer, mas sempre foi assim, desde a remota antiguidade. Todas as civilizações que por aqui passaram e tiveram seu apogeu e sua glória, marcaram sua presença pelos Ciclos da Vida. Para nós, seres humanos, reles mortais, não é diferente, e a cada novo ciclo que se inicia, renovamos nossos compromissos com ideais, sonhos, desejos...

Hoje completo 62 anos de existência... e faço uma breve retrospectiva do que fiz ou deixei de fazer... não há como nos arrepender do passado, nem mesmo lamentar; fizemos o que foi possível, o que nos pareceu justo e correto, a melhor opção diante de cada instante de nossas vidas, de acordo com nossa sempre limitada consciência. E fizemos bem, se não nos desviamos de nossos principios!

Tive uma infância privilegiada, em uma pequenina cidade do interior. Brinquei como todas crianças brincavam; fiz amizades que ficaram no passado... e cresci; tive uma adolescência atribulada, como foi a vida naquele momento difícil de nossa história; mas o sofrimento de ter a liberdade cerceada me permitiu ver o mundo com os olhos políticos que todos temos; tive o privilégio de conhecer pessoas brilhantes e batalhadoras, que não limitavam sua ação pelo medo da tortura.

Tive muitas oportunidades de estudar; fiz engenharia, letras, administração, história e logística; mas não terminei nenhuma faculdade; poderia dizer que o destino não quis, mas não foi assim: abandonei cada curso por decisão própria, algumas por desencanto, outras por necessidades do momento, mas sempre fui eu quem decidiu, e não me arrependo.

Segui minha carreira ao escolher, em uma encruzilhada, um dos caminhos que se mostravam à minha frente; trabalhei muito, durante anos, e me aposentei em 2007; pratiquei inúmeras atividades na Natureza e aprendi a amá-la acima de tudo, até mesmo dos homens, que lhe faltam sempre ao respeito; hoje sou um ambientalista, um ativista em defesa do Meio Ambiente.

Também optei por defender as minorias e me tornei indigenista; trabalhei na Amazônia e percebi que a realidade não é tão simples quanto nos parece, e que as lideranças desses povos humildes não são assim tão humildes, e defendem interesses próprios em detrimento de seu próprio povo, algo assim como nossos políticos, corruptos e desonestos...

Mas assim é a vida... meu pai me dizia que trilhar o caminho do bem não é fácil, pois não há reconhecimento; e mesmo quando optamos por preservar nossos princípios, somos desprezados pela sociedade, que prefere fechar seus próprios olhos e admitir que não tem remédio! Mas temos um compromisso com nossos descendentes, e esse compromisso é inadiável, inarredável, e deverá ser defendido intransigentemente, a despeito de nossos próprios interesses pessoais. Só assim consigo perceber minha missão aqui na Terra.

Hoje se incia um novo ciclo para mim, e novos desafios se apresentam. Começarei uma nova faculdade, de Fotografia, e estou me planejando para um projeto audacioso, ao menos para mim: escalar o pico do Aconcágua até 2015, pela Face Sul, a mais fácil e menos perigosa; mas para mim será um extremo desafio e um motivo a mais para perseverar em meu caminho. Sei que contarei com o apoio de minha família e de meus amigos...

Um grande abraço a todos que se lembraram de mim nesse dia!

domingo, 29 de janeiro de 2012

FaceBook - A Torre de Babel de nossos dias

Milhares de amigos, "causes" e "games" de toda natureza e uma obsessão por "curtir" tudo que aparece, dando-nos a impressão de que estamos "participando" do mundo e da vida, parecendo-nos que somos importantes e que determinaremos os destinos do mundo! Esse é o FaceBook, um mundo imaginário, ou "virtual", como o querem seus participantes!

Um Big Brother "politicamente correto", em que pessoas fazem "amigos" e trocam impressões inconsequentes, compartilham fotos e ideias, principalmente ideias de terceiros, mal assimiladas, mal compreendidas e fora de contexto, como é o mundo contemporâneo, onde todos se acham no direito de manifestar opiniões sem embasamento, sem fundamento e irresponsavelmente incoerentes!

Aqui, neste "universo virtual", problemas reais são compartilhados em uma ciranda alucinante, por meio de palavras, fotos e vídeos que parecem fazer da Terra uma Aldeia Global. No entanto, o mundo real continua existindo, cruel, desumano, injusto, preconceituoso e perverso, privilegiando os "afortunados" pela sorte ou pelas "espertezas", que Lula chamava de "maracutaias"!

A fome permanece fustigando populações inteiras, esquecidas em pequenas aldeias perdidas nos mais distantes rincões desse planeta nada virtual! Bilhões são relegados ao ostracismo, enquanto uma pequena parcela de privilegiados vive num mundo da fantasia, onde imensas mansões, automóveis de luxo, iates, praias particulares e acesso ao conhecimento não transformaram esses seres em pessoas solidárias, em cidadãos generosos, em políticos honestos.

FaceBook, a Torre de Babel contemporânea faz dos indivíduos pessoas piores, infinitamente irrelevantes para os destinos do mundo, pois nele se constroem "cidades e fazendas virtuais", travam-se batalhas fictícias, desenvolvem-se as habilidades de mafiosos para que, no mundo real, tudo continue na mesma, e os problemas sejam esquecidos, criando-se uma barreira psicológica, um bloqueio intelectual para que os verdadeiros ativistas sejam neutralizados no contexto real de nosso mundo perverso!

Qualquer um pode "falar" qualquer idioma, sem sequer frequentar uma escola de línguas, usando textos "macarrônicos" traduzidos para qualquer língua através do Google Translator!

Para onde caminha a Humanidade? Qual será o futuro dessas novas gerações de imbecis, preparados nas "universidades" da ignorância travestida em fantásticos "Sites de Relacionamento"? Na verdade, esses comportamentos pervertidos pelas novas mídias coincidem com a degradação ambiental do planeta, promovida pelas mineradoras, pelos latifundiários da soja, da cana e do gado, pelos políticos corruptos que dominam câmaras, senados e congressos em todo o mundo, pelas indústrias de agrotóxicos, pelos banqueiros e pelos falsos líderes que confundem a opinião pública com "divertimentos inocentes" como o Big Brother, pela música imbecil de nossos dias, pelos programas de auditório e "talk shows", cujo objetivo único é o de anestesiar as mentes dos jovens, futuros governantes do planeta que herdarão de nós!

E nós, cidadãos conscientes, o que fazemos? Somos, na verdade, a dissidência estúpida, bradando sermões nos desertos, defendendo Causas que não interessam à horda de zumbis que perambulam pelos labirintos da "informação" massificada e inútil... de nada adiantam nossas palavras, que não atingem o Grande Público! Enquanto eu tenho cerca de dois mil leitores por mês em meus blogs, o Big Brother consegue surrupiar sete milhões de ligações telefônicas por semana, apenas para definir quem será defenestrado nos paredões da Globo, "arenas" onde "gladiadores de araque" disputam a pequena fortuna de um milhão de reais para não fazer nada a não ser fofocar e fornicar em público, para deleite dos pervertidos telespectadores.

O FaceBook e seus similares não tão afortunados contribuem para a manutenção desse "status quo", disseminando idéias roubadas de verdadeiros pensadores que habitaram esse mundo em dias melhores que os atuais. De nada vale uma tecnologia sofisticada, complexa e plena de recursos fascinantes, se seu uso apenas corrobora a estupidez humana!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

VALE: a "Pior Empresa do Mundo"!

A VALE do Rio Doce foi eleita a Pior Empresa do Mundo por suas ações nefastas ao meio ambiente. 
Pela primeira vez uma empresa brasileira ganhou o inglório título de pior empresa por uma premiação criada desde 2000 pelas ONGs Greenpeace e Declaração de Bernia, a "Public Eye People's". O prêmio, também conhecido como o "Oscar da Vergonha" será anunciado amanhã durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça.

Com cerca de 25 mil votos, a Vale venceu por uma diferença de menos de mil votos a Tepco, maior empresa de energia do Japão, responsável pela usinas nucleares de Fukushima no Japão. Também estavam na disputa ao título de pior empresa do mundo a mineradora americana Freeport, o grupo financeiro Barclay's, a empresa sul-coreana de eletrônicos Samsung e a suíça de agronegócios Syngenta.

A indicação da Vale foi feita por um grupo de instituições sociais e ambientalistas formado pela Rede Justiça nos Trilhos, a Articulação Internacional dos Atingidos pela Vale, o International Rivers e a Amazon Watch.

No site da premiação, a indicação da mineradora era justificada por uma "história de 70 anos manchada por repetidas violações dos direitos humanos, condições desumanas de trabalho, pilhagem do patrimônio público e pela exploração cruel da natureza". Os organizadores condenam também o fato da Vale, em abril do 2011, ter comprado uma participação no Consórcio Norte Energia, responsável pela usina de Belo Monte, no Pará.

Na época em que foi escolhida como finalista, a Vale não se pronunciou sobre o assunto. A empresa se limitou a informar que disponibiliza anualmente um relatório de sustentabilidade no site da companhia na internet. Para 2012, a companhia prevê investir US$ 1,648 bilhão, sendo US$ 1,354 bilhão na proteção e conservação ambiental, e US$ 293 milhões em programas sociais. A cifra supera a estimativa feita para o ano passado, que era de US$ 1,194 bilhão.

Veja o ranking final:

A VALE DO RIO DOCE, empresa brasileira de mineração, concorrendo com outras cinco multinacionais (inclusive a SYNGENTA, uma das maiores indústrias de AGROTÓXICOS do mundo), foi eleita a pior empresa do ano, devido aos desastres ecológicos que vem provocando e às mentiras veiculadas sobre seu "compromisso social" e com o Meio Ambiente. 
Fonte: THE PUBLIC EYE PEOPLE’S AWARD 2012

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Dezesseis crianças indígenas morrem por diarreia aguda

Lideranças denunciam falta de estrutura e abandono do governo federal no atendimento
23/01/2011 - Renato Santana - Brasília (DF)

Fonte: Brasil de Fato


Uma criança indígena de nove meses da etnia Apurinã morreu na manhã desta sexta-feira (20) na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital da Criança, em Rio Branco, capital do Acre. Além dos Apurinã, que vivem no Alto Rio Inauini, os Huni Kuin (Kaxinawá) e Madjá (Kulina), do Alto Rio Purus, também registraram mortes.

De acordo com as lideranças indígenas que compõem o Conselho Distrital de Saúde, sobe para 16 o número parcial de crianças mortas no estado vítimas dos mesmos sintomas: diarreia, febre e vômito. O dado confronta o divulgado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que aponta 13 vítimas.

Entretanto, os indígenas apontam que tomam como base não só o órgão do Ministério da Saúde, mas também as informações de vítimas que não chegaram ao Pólo de Saúde.

“Tem outra criança que está na UTI e o estado dela é de gravidade. Como eu tenho dito, registramos casos de crianças que morreram nas aldeias destes mesmos sintomas”, frisa Ninawá Huni Kuin, conselheiro de saúde.

O Ministério da Saúde deslocou uma equipe de Brasília (DF) para o Acre com o intuito de investigar de forma mais detalhada a doença, mas Ninawá informa que os agentes ainda não chegaram. Mais de 20 aldeias já foram atingidas entre as comunidades indígenas do Alto Rio Purus, Alto Rio Envira e Alto Rio Inauini – com distância entre si que chegam a mil quilômetros.

Rotavírus

As suspeitas recaem sobre uma epidemia de rotavírus. No entanto, as autoridades não confirmam. “Até o momento, não foi confirmado caso ou óbito por rotavírus ou outra doença nas comunidades indígenas da região de Santa Rosa do Purus”, diz nota divulgada nesta quinta-feira (19) pela Sesai.

“Estamos com muita dificuldade para acessar informações. Essa criança morreu e logo o corpo foi levado para a aldeia”, destaca o missionário Lindomar Padilha, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Conforme dados da Agência Brasil, de 1º a 18 de janeiro, 70 crianças indígenas foram identificadas com doença diarreica aguda. Em dezembro de 2011, foram dez mortes. Até a última terça-feira (17) o governo federal confirmava oito mortes, mas passou a falar em 13 óbitos nessa sexta-feira.

Histórico

Ninawá Huni Kuin chegou a Rio Branco (AC), na manhã desta quinta-feira (19), com duas crianças indígenas doentes. Ambas apresentando os mesmos sintomas – diarreia, febre e vômito - que levaram à morte outras 16 dos povos Huni Kuin (Kaxinawá) e Madjá (Kulina), do Alto Rio Purus, entre dezembro de 2011 e janeiro deste ano.

Os dados passaram pelo Pólo Base de Saúde e as suspeitas são de uma epidemia de rotavírus – sem confirmação dos órgãos governamentais, que trabalham com oito mortes, sendo que as outras quatro ainda estão em análise. Diarreia aguda é a causa registrada nos atestados de morte.

As crianças levadas para tratamento especializado na capital acreana comprovam - independente de ser rotavírus ou não - que tal problema de saúde atinge outras áreas indígenas do estado, pois as crianças são de povos e regiões distintas aos óbitos registrados. Para os indígenas, a origem da doença está na água consumida.

“O ministro (da Saúde, Alexandre Padilha) fala com base em opiniões terceirizadas. Nenhum agente de saúde foi até as aldeias. Não vão por falta de estrutura há tempos”, afirma Ninawá, presidente da Federação do Povo Huni Kuin e integrante do Conselho Distrital de Saúde do Alto Rio Purus. Ele segue: “Não é só na área do (Alto Rio) Purus que isso acontece, mas em outras regiões, áreas de fronteira”.

Conforme o ministro declarou para a Agência Brasil de notícias, com base nas informações da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), não há confirmação das mortes por rotavírus. Entretanto, Padilha afirmou que não é a primeira vez que se registram casos de morte por diarreia aguda na região.

Ninawá diz ser revoltante ouvir do ministro tal declaração, porque “primeiro ele não confirma as mortes; depois diz que os casos (diarreia aguda) são comuns. Enquanto ninguém toma providências, já que todos sabem do problema”, ataca a liderança indígena.

Entre 2010 e 2011, cerca de 400 indígenas acamparam na porta da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) – há quase um ano em fase de transição para a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) – durante nove meses exigindo melhoras na assistência à saúde indígena no Acre.

“Entregamos para as autoridades um documento com as reivindicações. Uma delas envolvia a parte de saneamento básico. Pedimos prevenção, muito mais que obras. Estipulamos prazos, mas até agora sequer recebemos um retorno”, declara Ninawá.

Abandono

De acordo com o indígena, os agentes do Pólo Base do Alto Purus - núcleo de apoio à equipe multidisciplinar que encaminha os casos das aldeias para os hospitais e vinculado ao distrito sanitário – não conseguem cumprir suas funções por falta de estrutura.

“O papel deles é de estar nas comunidades fazendo trabalho de prevenção e isso não acontece. O pessoal não vai por falta de condição. Com isso, indígenas ficam sem medicamentos, vacinas e morrem de doenças que poderiam ser curadas com facilidade”, denuncia Ninawá.

Um barco maior é utilizado pela equipe. As voadeiras são para casos emergenciais, mais graves. Pacientes de média e alta complexidade são tratados apenas em Rio Branco, pois Santa Rosa – maior município da região do Purus - não tem estrutura. “Por isso digo que o ministro possui informações irreais, longe do que está acontecendo na comunidade”, explica o indígena.

Ninawá como representante indígena na área da saúde afirma ter presenciado outros casos que ilustram a situação do setor no Acre. Do Alto Enviara, presenciou indígenas Axaninca trazendo crianças doentes de canoa para a cidade que não conseguiram chegar vivas para o tratamento. “Eles desistem e voltam para a aldeia e não registram as mortes. Então, falamos agora de 12, mas pode ser muito mais”, lamenta.

Hepatite

Povos infectados com hepatite também foram identificados pelo Conselho Distrital de Saúde. A situação mais grave está entre os Janinawá. A Associação de Portadores de Hepatite da região constatou que mais de 60% da comunidade está infectada com algum tipo de hepatite.

“Falta educação na área da saúde, ou seja, prevenção. A própria condição da equipe multidisciplinar do Pólo Base, com a transição da Funasa para a Sesai que nunca acaba, acabou prejudicando as ações da equipe. Os agentes precisam ir para a comunidade. Mas com os problemas estruturais, a equipe fica só na cidade”.

Minha homenagem à maior mergulhadora do mundo: KAROL MEYER!

Karoline Mariechen Meyer, ainda pequena, foi morar em Florianópolis (SC) onde divide o seu tempo entre o trabalho na Caixa Econômica Federal, a familia e a paixão pelo mergulho em apnéia, ou “mergulho livre” .

Seu pai, Carlos Irapuan Meyer sempre foi um esportista. Influenciada por ele e com o apoio de sua mãe Marli, praticou inúmeros esportes desde a infância: atletismo (corridas de fundo – 1.500m), handball, body-board, mergulho e outros esportes de aventura, como o rafting, o canyoning e o rappel. Companheira de seu pai nas pescarias desde os 5 anos de idade, seguia com ele para os rios e costões… Aos 15 anos já fazia parte da equipe de handball do estado de Santa Catarina, participando de vários campeonatos brasileiros.

Karol foi recordista em medalhas de ouro das Olimpíadas do Colégio Catarinense, vencendo as provas de: maratona, ciclismo, corridas: 1500m, 1000m, 800m, tênis de mesa, arremesso de peso.
A paixão pelos esportes fez com que praticasse também o basquete e o bodyboard, onde se destacava nas grandes ondas.

Paralelamente realizava saídas para o mar, com praticantes de pescasub, mas passava a maior parte do tempo somente contemplando do fundo do mar, fato que chamava atenção dos demais.

Aos 17 anos ingressou na faculdade de Direito na UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, seguiu cursando a Escola da Magistratura de SC e depois a pós graduação em Direito Empresarial na ESAG. O mergulho era praticado como lazer, gostava de ficar passeando no fundo do mar e no fundo das piscinas…Foi durante saídas para pesca submarina que passou a ser observada e seus longos mergulhos comentados, pela facilidade com que chegava às profundidades e a capacidade para longas apnéias. Ficava apreciando e divertindo-se vendo a fauna e flora marinha.

Em 1988, após assistir ao filme Imensidão Azul, a sua paixão pelo mergulho se tornou incontrolável. Passou a praticar e estudar o mergulho autônomo e livre, com vários cursos PADI, NAUI, PDIC e de mergulho em apnéia com NUC, AIDA, IAFD. No início de 1996 descobriu a apnéia competitiva, que ainda não existia no Brasil, tendo contato direto com recordistas mundiais como Andy Le Sauce, Claude Chapuis, Loic Leferme. Motivada pelos conhecimentos adquiridos, passou a ministrar cursos e deu início aos seus treinamentos visando uma nova marca nacional na disciplina. Foi na piscina do Lira Tênis Clube de Florianópolis que fez sua primeira apnéia estática de 3′ 39″ e ficou próxima do recorde nacional na época, motivando-se ainda mais com a apnéia, na sua forma competitiva.

Tornou-se Instrutora de renome internacional através de vários cursos realizados ao longo de sua carreira, como o de formação como instrutora realizado junto à Universidade Nice – Unidade de Formação e Pesquisas em Ciências e Técnicas de Atividades Físicas e Esportivas.

AIDADescobriu a AIDA em 1996 Associação Internacional para o Desenvolvimento da Apnéia – em particular o site da AIDA França, mais tarde foi convidada à compor o Comitê Internacional da entidade.

No inicio a atleta teve sua marca reconhecida pela CBPDS, Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos, com o tempo de 4′ 07″ seg no dia 9 de setembro de 1998. Na seqüência veio nova marca de 4’31″, mas notou que estava só, não haviam competições, não havia apoio para o esporte, nenhum material científico em nivel nacional, nenhuma escola ou instrutor que pudesse passar ensinamentos à fundo sobre o esporte…

Por ter fundado a Aida (uma associação esportiva sem fins lucrativos) no Brasil, foi vítima de represálias e discriminação. Todos os seus recordes mundiais, pan-americanos, sul-americanos e nacionais foram homologados pela AIDA (www.aida-international.org), sem qualquer apoio da entidade dita como “responsável” pelo desenvolvimento do esporte no país.

A atleta treinou e aprimorou sua prática com os melhores do mundo, assim como disseminou o esporte, trazendo para o país a Aida Seção Brasil, da qual foi presidente fundadora e hoje atua como responsável pela educação através dos cursos Aida Freediver em todos os níveis.

Em 1999, conheceu o legendário Umberto Pelizzari, que carinhosamente a chamava de “Principessa Degli Abissi”, realizou o curso da Apnea Academy e lá mesmo ultrapassou o tempo de 5 minutos em treinamento. Em menos de um ano quebrou 3 marcas nacionais e deteve a marca sul americana da disciplina apnéia estática. Pelizzari disse que ela poderia ser um dos destaques do campeonato mundial… Então, iniciou seus projetos para sair do país e mergulhar de vez na aventura da apnéia!

A meta era ir para a França desta vez para treinar no mundo do BIG BLUE e treinar com os melhores do mundo, seguindo para participar do Red Sea Dive Off 99, a única grande competição internacional organizada pela AIDA em 1999. Em junho desembarcou em Nice – França, para treinar em Saint Jean Cap Ferrat . Visava, também, aprender as disciplinas de profundidade como o lastro variável, o costante e a imersão livre para realizar novas marcas nacionais e sul-americanas para o Brasil.

Lá treinavam os maiores apneístas do mundo! Franceses, como Loïc Leferme – recordista mundial na modalidade No Limits, Olivier Heleau, Claude Chapuis, Guillaume Nery, com os quais manteve estreita relação, enriquecendo dia a dia os seus conhecimentos e treinamentos.

Treinou, realizou cursos, graduou-se no mais alto nivel de Instrutora de Apnéia e Juiza Internacional. Com treinamento adequado veio a rápida evolução, atingiu o seu melhor tempo em treinamento na modalidade apnéia estática: 6′ 31″! Nas disciplinas de profundidade também avançou colocando-se entre as atletas AIDA TOP 10 (10 melhores do mundo). Hoje, suas marcas em treinamento vão bem mais além… Sem patrocínio, somente com o apoio da familia e, contando com o estímulo e conhecimento do Sr Nicolleti (PINO), que desenhou e fabricou sua primeira roupa de neoprene, Karol teve forças para chegar na competição do Egito – Red Sea Dive Off ’99onde venceu todas as provas femininas: lastro constante, estática e combinado individual. Neste mesmo evento quebrou pela 2ª vez o recorde mundial feminino de apnéia estática, em competição, com o tempo de 6′ 02″! Foi o primeiro recorde mundial (absoluto) quebrado em competição!

Realizar um recorde mundial nessas condições constitui um evento único, sem precedentes na história dos recordes de apnéia” declarou Claude Chapuis (apneísta francês criador da AIDA e de todas as regras de competição e segurança – um verdadeiro ícone do mundo da apnéia). Com este recorde Karol Meyer além de ser a única mergulhadora brasileira a realizar marcas mundiais, igualou-se em recordes com o brasileiro Américo Santarelli.

Neste mesmo período a atleta foi convidada à participar do seleto Comitê AIDA que internacionalizou definitivamente a entidade, sendo o esporte difundido para vários países.

Em 2000 retornou à França para mais uma temporada de treinos, quebrou o recorde sulamericano em lastro variável – absoluto (feminino e masculino), atingindo a profundidade de -70 metros com grande maestria, fato que causou espanto aos atletas franceses. Ainda neste ano seguiu para seu papel de Juiza Internacional, quando homologou nas Ilhas Caymans o recorde mundial masculino no lastro constante, trazendo o esporte para as Américas, ensinado e propagando a credibilidade da instituição internacional para o continente.

Em 2001 seguiu para Miami como Juiza Internacional para a marca de -133 m no No Limits da eterna amiga Audrey Mestre. Em setembro do mesmo ano, juntamente com Audrey, realizaram recorde mundial de No Limits Tandem de – 91m de profundidade (o que seria a última marca da amiga que infelizmente faleceu em 12 de outubro 2002, em descida para recorde). Foi lá em Miami que Karol quebrou pela 3ª vez o Recorde Mundial de apnéia estática com 6′ 13″, entrando novamente para a história e tornando-se recordista absoluta de recordes mundiais para o Brasil, ultrapassando inclusive a categoria masculina.

Em 2002 treinou forte numa pedreira inundade em Salto de Pirapora-SP. Lá chegou aos -67m em imersão livre (a menos de 3 metros do recorde mundial nesta disciplina).

2003 A atleta retorna ao seu estado de origem Pernambuco, para conhecer o paraíso de Fernando de Noronha… Convidada especial dos 500 anos do arquipélago, Karol Meyer realizou 2 marcas históricas… Chegou ao Naufrágio da Corveta Ipiranga em apnéia (-57m) e desceu as famosas “Paredes” (-80m) além de se tornar a 3ª melhor mergulhadora do mundo nas disciplinas Imersão Livre e Lastro Variável.

Nesta época foi convidada para fazer parte do filme Noronha’s Edge, da Hydrosphera Produções, que participou do Festival Mundial de Imagens Sub em Antibes – FRA.

Karol foi eleita Melhor Instrutora (Coach) no mundo em 2006 pelo entidade internacional ICARE, além de um prêmio muito especial dado pela entidade "SPECIAL ICARE TROPHIES 2006“por sua completa carreira como atleta, juíza e instrutora no mundo do mergulho livre”.

Desde 2002 a atleta conta com o patrocínio da Mormaii, e apoio da Academia Racer, Lira Tenis Clube, Yogashala, além do auxilio da CAIXA e apoios específicos dependendo de cada projeto.

Os exercícios em apnéia também ganharam uma energia a mais quando Karol passou a praticar YogaHoje é adepta do hatha yoga, do Yogashala, no qual realizou curso de formação como instrutora com Camila Reitz.

O mergulho no yoga foi um passo importante para o meu crescimento. Mente e corpo em melhor sintonia com Deus, maior concentração, tranqüilidade, força interior!” (Karol)

2007 foi um ano completo – a atleta se tornou a 1ª a unificar todas as marcas sul-americanas do mergulho livre, 8 disciplinas, recebendo também o prêmio internacional de “Best Female Freediver 2007″ (Melhor Mergulhadora no mundo em 2007) pela entidade Suiça – ICARE Trophie.

Dentre seus recentes feitos, se tornou o ser humano com o maior tempo de apnéia no mundo, com incríveis 18 minutos e 32 segundos sem respirar, indo para o livro dos recordes, o Guinness Book TM, além da conquista dos 100metros de profundidade na ilha de Bonaire, Buddy Dive reef.

A atleta é uma das mais completas mergulhadoras no mundo do esporte e a maior representante do Brasil no mundo do mergulho livre.

Mergulhe no seu site e saiba o porquê…http://www.karolmeyer.com/


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Nova Denúncia contra a VALE!


(…) Não é preciso ser médico ou entendido em questões ambientais para perceber a situação em que vivem os moradores de Piquiá, literalmente cercados pelo polo siderúrgico: a poluição do ar é visível, e as más condições de saúde estão estampadas nos rostos das pessoas.
Em outubro, uma semana antes da visita da reportagem da Caros Amigos à comunidade, Antonia Avelino Gomes Souza, de 47 anos, faleceu de insufiência respiratória aguda, decorrentel de câncer de pulmão. Em 2007, seu marido Francisco da Silva Santos morreu vítima da mesma doença. Há inúmeros casos de queimaduras, a maioria delas por conta do contato com a munha, resíduo do carvão, altamente inflamável.

O pernambucano Anísio Pereira, de 70 anos de idade e há 20 morando em Açailândia, nos leva até o local onde fica a munha, do outro lado da BR-222, que divide o bairro. É uma enorme pilha de pó preto, a céu aberto, que tem em volta apenas um “muro” cheio de sacos de areia e onde há uma placa indicando: “perigo, afaste-se, risco de morte”.

Porém, como animais e crianças pequenas não sabem ler, há muitos casos de queimaduras. O filho de um vizinho de Luzinete, por exemplo, teve as duas pernas queimadas. Há também o caso de Gilcivaldo Oliveira de Souza, de sete anos, que, ao procurar pedaços de carvão, subiu no monte de munha, que amoleceu e o queimou até a cintura. O menino morreu após 20 dias de sofrimento, em novembro de 1999.

(…) A comunidade existe desde a década de 1970, e, em 1980, com a implantação do Projeto Grande Carajás, construiu-se o polo siderúrgico. Em 1985, foi inaugurada a EFC. Hoje, cerca de 1.100 pessoas vivem no local, e há vários anos a Associação de Moradores de Piquiá de Baixo tem encaminhado denúncias dos impactos da siderurgia a distintos órgãos.

Como resposta, na maioria das vezes obteve o silêncio. O apoio tem vindo da Paróquia São João Batista de Açailândia, da organização Justiça nos Trilhos e do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia. A população reivindica a saída das famílias do bairro e o reassentamento em uma nova área. Embora os problemas de saúde da população sejam visíveis, as Secretarias Municipais e Estaduais de Saúde e Meio Ambiente nunca foram à região para medir o grau de poluição da água, do solo e do ar.

(…) No levantamento [relatório da Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH), feito em conjunto com as organizações Justiça Global e Justiça nos Trilhos e divulgado em maio de 2011], avalia-se que “o município de Açailândia se beneficia pouco da existência das gusarias. Em particular, o bairro do Piquiá de Baixo constitui uma ‘Zona de Sacrifício’ [nome que se dá a áreas escolhidas para a instalação de grandes empreendimentos causadores de impactos socioambientais, quase sempre localizadas nas periferias urbanas]. Na frente das casas dos moradores de Açailândia, o trem transporta, todos os dias, o correspondente bruto, em minério de ferro, a cerca de R$ 50 milhões [observação do blogue: em mais ou menos 67 dias a Vale transporta o equivalente a seu valor de venda: a então Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) foi privat(ar)izada por aproximadamente R$ 3,3 bilhões no governo tucano de Fernando Henrique Cardoso num dos maiores crimes de lesa-pátria de que este blogueiro recorda]. O trem da Vale pode ser considerado o maior trem do mundo, com 330 vagões, cerca de 3.500 metros de extensão e a capacidade para transportar 40 mil toneladas, mas as condições de vida dos habitantes não refletem essa riqueza”.
(…) “Depois de tantos anos de luta, nossa nova terra e nosso futuro estão nas mãos de três juízes de São Luís. Um julgamento está por acontecer e decidirá se a terra fica para 50 vacas, cujos donos têm muitas outras terras, ou se fica para nós, que somos mais de 1.100 pessoas e não temos opção. Há sete anos nossos 21 processos de indenização aguardam julgamento do Poder Judiciário. Por que os pobres têm sempre que esperar tanto? As siderúrgicas continuam poluindo nosso ar, nossa água e solo. O barulho não nos deixa dormir. Nossos processos se bloqueiam pela burocracia e os recursos. Mas nem o Ministério Público nem os órgãos ambientais nunca mandaram parar um forno por respeito à nossa vida. A mineradora Vale fica observando tudo isso e se acha limpa. Mas foi ela que trouxe essas siderúrgicas pra cá e é ela que as alimenta de ferro e escoa sua produção. Se ela tivesse realmente interessada em uma solução, já teria exigido isso das siderúrgicas. Mas não: ela quer duplicar, construir um novo Carajás, passando por aqui”, diz um trecho da carta [entregue por moradores de Piquiá à governadora Roseana Sarney em dezembro passado, quando ela inaugurava 14km de asfalto no município].
O desembargador Paulo Velten, que acatou o pedido de liminar em 27 de setembro, está de férias, e quem assume suas funções até o retorno do colega é o desembargador Raimundo Nonato de Souza. Ele recebeu um pedido de revogação da liminar por parte do advogado da Associação de Moradores de Piquiá, Danilo Chammas. “A situação é gravíssima e demanda uma solução urgente”. Procurado pela reportagem, o desembargador Raimundo Nonato disse, por meio de sua assessoria, que não poderia atender, “pois estava muito ocupado”.
* Acima, trechos da ótima reportagem Os invisíveis da cadeia de ferro, assinada em cinco páginas pela jornalista Tatiana Merlino, na edição 178 da revista Caros Amigos (janeiro de 2012), cuja capa anuncia: Polo siderúrgico, o inferno de Piquiá – Onde o povo respira fuligem de ferro. Os problemas aí expostos não são os únicos causados pela mineradora, transformada em um problema mundial com a privat(ar)ização FHCista. A matéria de Merlino aponta ainda problemas com Os meninos clandestinos do trem da Vale, que dá conta, inclusive, de ameaças de morte recebidas por crianças e adolescentes que embarcam clandestinamente nas composições da empresa.
Não é a primeira vez que a jornalista da Caros Amigos, aponta problemas da mineradora: em dezembro passado (nº. 177) ela assinou a matéria Vale duplica ferrovia e multiplica violações no Maranhão e Pará, em seis páginas. Na ocasião percorreu municípios paraenses e maranhenses ameaçados pelo novo empreendimento minerador da Vale, identificando ocorrências de prostituição, exploração sexual infantil, trabalho infantil e em condições análogas a de escravo, atropelamento de animais e pessoas (uma por mês, em média), entre outros problemas. Trecho da reportagem aponta também que “a empresa prevê a remoção, ao longo da via férrea, de 1.168 “pontos de interferência”: cercas, casas, quintais, plantações e povoados inteiros”.“Pontos de interferência”: assim a Vale vê o que ou quem ousa impedir ou atrasar o aumento de seus já estratosféricos lucros. A Rede Justiça nos Trilhos vem fazendo sistematicamente denúncias sobre os impactos da mineradora, e estes não se restingem a Maranhão e Pará. Para citar apenas os mais recentes, o bloqueio de um trem em Moçambique e a interdição das obras de duplicação da ferrovia em Açailândia.
Maior corporação de minério do mundo, a brasileira Vale está presente hoje em 38 países. Tamanha grandeza a coloca entre as “seis finalistas do prêmio Public Eye Award, que todos os anos escolhe a pior empresa do planeta por voto popular e anuncia a vencedora durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. É a primeira vez que uma empresa brasileira concorre ao prêmio”, de acordo com informações do site da Justiça nos Trilhos. Clique aqui para votar na Vale.

 Comunidades da zona rural de Açailândia interditam obra de duplicação de trilhos da Vale
Desde o começo da manhã cerca de 700 funcionários da empresa estão cercados impedidos de circular pela região AÇAILÂNDIA – Aproximadamente dois mil moradores da zona rural de Açailândia/MA, de Novo Oriente, Francisco Romão, Planalto I e II e acampamento João do Vale, ocupam desde a madrugada de hoje (19), a vicinal que dá acesso às obras de duplicação da Estrada de Ferro Carajás, sob concessão da mineradora Vale.
O motivo da interdição da via, onde cerca de 700 funcionários da empresa estão cercados pelos manifestantes, se dá pelo não cumprimento da mineradora às contrapartidas na região que foram acordadas com os moradores das comunidades, há dois meses junto à Prefeitura Municipal de Açailândia.“Só encerraremos o protesto se representantes da empresa vierem negociar com a população, pois estamos solicitando à Vale várias compensações diante de seus projetos nas comunidades há muito tempo e agora foi o estopim, pois ela descumpriu prazos e o povo não aguenta mais e quer uma resposta”, esbraveja Ricardo Amaro de Sousa, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Açailândia, que habita na região.Segundo documento entregue ao Ministério do Meio Ambiente e IBAMA pela Rede Justiça nos Trilhos, que monitora os problemas provocados pela Vale nas comunidades que margeiam a ferrovia no Maranhão, os impactos na zona rural de Açailândia são muitos.
“Atropelamento de pessoas e animais, trepidação e rachadura das casas, além do aterro de poços com a passagem do trem, poluição sonora, aumento do tráfego de carros, o envenenamento das terras da comunidade pelo veneno jogado nas plantações dos eucaliptos que cerceiam os assentamentos, devastação ambiental e constantes incêndios provocados pela locomotiva”, são alguns dos problemas que constam do documento.
Diante desse quadro, as contrapartidas requeridas pela comunidade e não cumpridas pela mineradora são: “melhorias na escola, construção de túneis para passagens de carros e passarelas para travessia de pedestres sob a estrada de ferro, valor justo de indenização para remoção das casas, recuperação dos reservatórios de água, trabalho de prevenção a incêndio, apoio às experiências ambientais, pesquisas para avaliar impacto dos agrotóxicos vindo do eucalipto na plantação dos assentamentos e um posto de saúde”Fonte: Márcio Zonta, da Rede Justiça nos Trilhos

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A decadência moral e intelectual da sociedade



Depois do lamentável episódio ocorrido no site de filmagens do medíocre programa da Rede Globo, o que se discute é a validade de uma emissora de televisão ter direito de exibir cenas dessa natureza. O que acrescenta à população um programa que dura meses e só mostra futilidades, vaidades e vulgaridades? Qual a finalidade de um programa dessa "qualidade"?

Quando George Orwell, o genial escritor inglês, escreveu 1984 ("Nineteen Eight Four"), seu romance era uma crítica à invasão de privacidade de um regime totalitário onde um sistema de fiscalização ( o BIG BROTHER) "sabia" tudo de todos os cidadãos; ninguém tinha privacidade! Jamais poderia ele imaginar a deturpação de sua obra nesse contexto de futricas, fofocas, intrigas e maledicências em que se transformaram as diversas versões que se espalharam como um vírus por todo o mundo, inclusive no Brasil.

O baixo nível que caracteriza todas as edições do BBB chegou a extremos que, agora, tomam feição de caso policial, de crime contra a integridade, de agressão à mulher. Não que ela fosse inocente, pois compartilhava as carícias com seu "companheiro", mas seu estado de embriagues favoreceu os abusos evidenciados pelas câmeras e a omissão da emissora de TV em intervir imediatamente em tal situação, que foi vista por milhares, senão milhões de brasileiros. O caso teve repercussão internacional e cogita-se interpor ações contra a Rede Globo por omissão de socorro e favorecimento de situações libidinosas em seus estúdios.

O mais grave, contudo, é a atitude dos próprios telespectadores que "valorizam" esse tipo de programa de péssima qualidade e nenhuma contribuição para a inteligência e a cultura de nosso povo. Aliás, a Rede Globo, ao longo de sua história, vem induzindo mudanças sociais que subtraem valores éticos e morais da família brasileira. Sua ação nefasta se agrava pelo fato de ter repercussão nacional e atingir, inclusive, populações simples do interior do Brasil. Até mesmo indígenas da Amazônia assistem esse tipo de programa, com pouco entendimento e enorme ingenuidade, descaracterizando sua cultura tradicional e induzindo bruscas transformações em seus costumes.

Até onde vai a "Liberdade de Expressão"? Que direito tem uma emissora de televisão de invadir nossas casas e impingir sua "moral" distorcida aos nossos filhos, sem o nosso consentimento? Que contribuição social dá esse programa cretino à cultura da Nação?

No entanto, a pobreza intelectual de nosso povo é tamanha que os índices de audiência são enormes! Lembro-me da TV Tupi, que produziu durante anos o que foi nossa escola de Arte Dramática: a TV de Comédia e a TV de Vanguarda, de saudosa memória... lembro-me também da qualidade que tinha o programa Fantástico nos seus primórdios... lembro-me, ainda, que a própria TV Globo manteve durante alguns anos um programa de Música Erudita ("Concertos para a Juventude") aos domingos, depois do Fantástico. Tudo isso é passado, infelizmente.

Hoje, temos o patético Domingão do Faustão, programa medíocre que repete semana após semana, ano após ano, a mesma fórmula idiota de "seduzir" o auditório com suas piadas de mau gosto e sua programação tão repetitiva que, se passassem a reproduzir os VT´s de anos atrás, ninguém perceberia o fato! Faustão é a versão piorada do Chacrinha, o Abelardo Barbosa, e repete sua fórmula de "agredir" seus companheiros de trabalho com ofensas verbais disfarçadas de "comédia bufa"! Só que Chacrinha foi incensado pela mídia e transformado em Profeta da Comunicação! E Faustão não consegue enganar ninguém!

Voltando ao nosso deplorável Big Brother Brazil, podemos dizer que esse programa e sua imensa audiência são o mais efetivo termômetro da degeneração intelectual contemporânea! E isso não é privilégio do Brasil, pois sua fórmula foi desenvolvida por um holandês que se tornou bilionário, propagou-se pela Europa e veio desaguar, lamentavelmente, no Brasil, onde "nada se cria, tudo se copia!". Prova disso é o nosso mais famoso "talk show", o Programa do JÔ, totalmente copiado da TV americana (The Late Show with David Letterman), que tem a mesma formatação, com direito a bandinha e a piadas cretinas também!

Diante dessa triste constatação, só nos resta assistir apaticamente nosso "Grande Irmão" deformar a personalidade desse povo ingênuo e sem criatividade...

sábado, 14 de janeiro de 2012

Virtudes e Pecados

O fio condutor da História da Humanidade indica que a evolução da raça humana e sua diferenciação dos outros animais não se limita à nossa capacidade de raciocínio privilegiada. Existe um outro fator que nos diferencia dos "bichos" e nos impele a dominar o mundo: é a ambição sem limites que faz uso da força não apenas para conseguir alimentos ou assumir a liderança de grupos humanos, mas também para conquistar, humilhar e impor sua vontade.

Essa constatação não é mera retórica. Todas as civilizações que se destacaram no passado têm em sua consciência um número incontável de mortes, seja nos campos de batalha ou nas catacumbas do poder onde, através da tortura e da humilhação, homens se tornaram poderosos e ricos; mais ricos do que qualquer senso ético poderia admitir como tolerável.

Nessa ânsia pelo poder, pela dominação e pelo enriquecimento o ser humano cresceu, sua ciência se desenvolveu e sua cultura, sob todos os aspectos, floresceu. Se a Arte Clássica atingiu patamares tão elevados e sublimes, deve isso aos poderosos, que não apenas financiavam seus criadores, mas colocavam-nos no patamar dos "nobres".

Arte, Ciência e Religião foram, ao longo dos séculos, a expressão máxima da cultura humana, seu orgulho e sua recompensa pelos crimes bárbaros cometidos contra os pobres, os dominados, os escravos. Hoje, chega-se a valorizar a "Arte da Guerra", como se pudéssemos nos orgulhar das tragédias cometidas pelos nossos antepassados em busca do poder e da fama. O livro de Sun_Tzu tornou-se "best seller" entre executivos de grandes organizações em função de seus conselhos sobre como dominar e destruir seus adversários. As áreas de marketing e vendas de qualquer organização constituem-se em seu "bunker" para surpreender a "concorrência", nome contemporâneo para se identificar o "inimigo".

Antigas civilizações são cultuadas pelos seus feitos "heroicos", suas conquistas de territórios, suas escaramuças contra outros povos, seus saques e estupros praticados contra o perdedor. A economia desses povos antigos se fundamentava na mão de obra escrava, constituída de soldados capturados nos campos de batalha e cidadãos endividados que não conseguiam cumprir suas obrigações financeiras. A sociedade se constituía de castas, cada qual com seus privilégios, diferenciando seres humanos pela sua origem étnica ou social.

A História Moderna não é diferente: apenas o poder de dominação que cresceu, tornando as guerras mais devastadoras, seja contra o ser humano, seja contra o meio ambiente. Na Segunda Guerra Mundial morreram cerca de 25 milhões de pessoas, entre soldados e população civil, enquanto que no conflito anterior contabilizaram-se quase 20 milhões de indivíduos. Na Guerra dos Cem Anos, que durou de 1.337 a 1.453 e envolveu toda Europa de então, morreram "apenas" milhares de pessoas, segundo estimativas dos historiadores.

É claro que a população da Terra no século XX é muito superior à população dos séculos XIV e XV, mas o que mudou, de fato, foi o poderio militar contemporâneo, as armas de alto poder de destruição e a estratégia militar. No entanto, o que não mudou foi o espírito belicista e violento do ser humano, causa de todas as guerras: ambição, poder e riqueza!

Mas o mais intrigante é que as consequências das guerras sobre o desenvolvimento das civilizações foram extremamente "favoráveis". Podemos até dizer que o Conhecimento Humano cresceu aos saltos, justamente nos períodos de guerra e subsequentes. Nos raros intervalos de paz de qualquer civilização, o que houve foi uma enorme estagnação!

Isso poderia nos levar a concluir que as guerras são um "mal necessário", mas essa é uma conclusão simplista e estúpida, ainda que os resultados evidenciem o processo evolutivo. A questão fundamental é: "Se não existissem as guerras o Homem teria evoluído mais, intelectualmente? Teria sido mais feliz? Em que estágio evolutivo estaríamos hoje sem não houvessem as guerras? Será que nossa sociedade seria menos consumista e haveria menos desperdício dos recursos naturais? Que consequências teria isso para a humanidade?"

São perguntas que não saberemos responder, uma vez que a natureza humana mudou muito pouco ao longo desse nosso curto período de existência na face da Terra. Sim, pois nossa história representa apenas 0,002% da existência de vida animal em nosso planeta! No entanto, podemos afirmar que hoje seríamos mais felizes, ao menos por não carregar na consciência o peso de tantas e tamanhas atrocidades praticadas pelos nossos antecedentes!

Outro aspecto relevante a se considerar é qual rumo teria seguido a Ciência e o Conhecimento Humano se não tivéssemos esse espírito belicista, cruel e destruidor? Como seria viver em Paz, sem a existência de conflitos? Por que somos assim? Dizer, simplesmente, que somos seres imperfeitos é uma resposta simplória demais, pois não há justificativa para qualquer tipo de violência. No entanto, até nossos mecanismos de coerção e combate à violência são extremamente violentos! Então, nunca haverá um mundo de Paz?

Voltemos à nossa História recente com um exemplo, talvez o mais contundente: os Estados Unidos da América do Norte são considerados o "baluarte da democracia", e citados como exemplo de sociedade onde os indicadores sociais são os mais elevados do mundo. No entanto, em sua curtíssima existência, esse país já se envolveu em mais conflitos do que qualquer outro; basta citar a 2ª Guerra, a Guerra do Vietnam, a Guerra do Golfo, a Guerra contra o Iraque, a Guerra do Afeganistão, as invasões de Cuba e as intervenções em grande parte dos golpes militares do século XX, intervenções essas que favoreceram, paradoxalmente, a ruptura do processo democrático de Nações livres, justificadas pela "necessidade" de bloquear a evolução do comunismo em direção ao Ocidente. Curiosamente, em nenhuma dessas guerras ou intervenções os "EUA" estiveram diretamente ameaçados!

Também há que se destacar os "métodos" adotados nesses conflitos, com o uso de bombas nucleares contra o Japão, armas químicas e biológicas contra o Vietnam, assassinatos perpetrados pela CIA em todo o mundo, contra líderes políticos, grupos estudantis, cientistas e intelectuais de esquerda. Na verdade essa lista de crimes não tem fim, pois não apenas o governo americano ordenou essas matanças, mas também grandes multinacionais os praticaram em defesa de seus "interesses" capitalistas.

Diante dessas constatações retornamos ao tema original: quais seriam as virtudes do Ser Humano diante de tantos "pecados", tantas atrocidades e tantos crimes praticados em nome de "verdades" relativas, que só às castas privilegiadas interessam? Haveria futuro para a "Raça Humana" diante de um passado tão vergonhoso? O que mudou na consciência do Homem no presente?

Não vejo razões para ser otimista...

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Uma Crônica de Mortes Anunciadas

FELIPE MILANEZFONTE: KANINDÉ Associação de Defesa Etnoambiental

Por Felipe Milanez


Foto: Felipe Milanez. - Zé Cláudio e a Majestade. A imensa castanheira localizada no lote do assentamento do ambientalista era seu maior orgulho. 
“Verás que um filho teu não foge à luta!” O grito emocionado e estridente da senhora que empunhava o microfone, ao fim do hino nacional cantado no enterro, repetido diversas vezes, ainda ecoa na minha cabeça. Queria a paz da floresta, aquele silêncio marcado por leves ruídos de insetos e do vento balançando a folhagem. Queria limpar a tristeza de um dia marcado por emoções, lamentos e revoltas, e encostar novamente na Majestade. Quem sabe, conseguir falar com ela, como fazia José Cláudio Ribeiro, assassinado por pistoleiros dois dias antes junto de sua esposa, Maria do Espírito Santo, aqui dentro do assentamento onde estou, o Praia Alta Piranheira, em Nova Ipixuna, no sul do Pará, onde também está a Majestade, a maior castanheira do lote do casal. “A maior castanheira que eu já vi na vida, maior castanheira que ele, também, diz já ter visto”, escrevi para a VICE em outubro do ano passado, quando estive aqui, nesse mesmo lugar, na companhia de José e Maria.
Os pistoleiros cortaram friamente a orelha de José para provar o crime e receber o pagamento. Isso porque ele não queria vender a Majestade para virar uma tábua. Nem queria que a terra onde ela estava virasse pasto para boi. Floresta era para continuar sendo a mata. Queria a Majestade viva. Junto dele.
José Cláudio Ribeiro foi assassinado no dia 24 de maio, sete meses depois da matéria publicada. No dia de sua morte, um trecho do texto foi lido no Plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, pelo deputado federal Sarney Filho, do PV. Nessa mesma terça-feira, os deputados aprovaram o Código Florestal, uma lei que coloca em risco as florestas e legaliza desmates. Os ruralistas que estavam na Câmara e ouviram Sarney Filho declarar o assassinato do casal vaiaram a fala do deputado. Vaiaram o cruel vaticínio de uma morte bárbara de duas pessoas inocentes que lutavam para que a terra onde viviam continuasse a ser sua, e a ser uma floresta.
No dia seguinte, o enterro do casal foi realizado com uma multidão emocionada e faixas de protesto pedindo por justiça. Nessa mesma tarde, os familiares das vítimas foram até o local onde Maria do Espírito Santo lecionava para crianças dentro do assentamento. Também foram autoridades, deputados, policiais civis, militares e federais. Nos céus, um helicóptero do Ibama compunha o cenário. Por volta das três da tarde, sem chegar a interromper os discursos, sem que nenhum dos presentes se desse conta, Erivelton Pereira da Silva, um jovem colono de 25 anos, era assassinado. Ele poderia ser uma testemunha da morte de José e Maria. Seu corpo em decomposição foi encontrado dentro do assentamento por familiares preocupados com seu desaparecimento apenas no sábado de manhã. A Polícia Civil, informada por eles, pelo Ibama e Polícia Rodoviária Federal, que faziam uma operação contra crimes ambientais na área, chegou apenas à noite, numa busca que mais lembrava um filme de terror.
“É tráfico”, me disse o delegado José Humberto de Melo Jr., que chefia a área de investigações de conflitos agrários, depois de vermos o corpo. José Batista Afonso, advogado da Comissão Pastoral da Terra, atuante defensor dos direitos humanos e quem me apresentou José Cláudio, mostrou-se indignado com o que ele considera imprudência: “É irresponsabilidade descartar a ligação entre os crimes”.
“Tráfico” é uma chancela próxima a um crime sem suspeitas e que dificilmente vai ser desvendado. O inquérito ficou sob a responsabilidade da Polícia Civil de Nova Ipixuna. Erivelton não conseguiu, em vida, produzir um discurso que provocasse uma simpatia nacional ou revolta pelo seu assassinato. Seus familiares ali presentes estavam desolados, desesperados. Sabiam que o caso poderia ficar por isso mesmo. “Isso não pode ficar impune”, me disse, ainda na mata e ao lado do corpo, seu tio João de Sousa Pereira. “Isso vai sair na TV? Vocês vão mostrar na TV?”, me perguntou. Ele sabe que uma pressão externa sobre a polícia local é o meio mais eficaz de fazer com que a investigação avance.

Autoridades vieram se reunir com a comunidade na escola onde Maria dava aula, dentro do assentamento. As mesmas faixas utilizadas no velório foram penduradas nas paredes. Enquanto os políticos falavam, os assentados temiam a presença de um dos suspeitos de ter encomendado o assassinato do casal. Foto: Marcelo Lacerda.

O percurso de dez quilômetros, da casa do irmão de José Cláudio até o Cemitério da Saudade, em Marabá, foi desgastante. Ponte sobre o rio Tocantins. No meio, a Estrada de Ferro Carajás, da Vale, parada, onde queimam pneus que produzem uma fumaça escura, espessa, fúnebre. Charles Trocate, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, ameaçado de morte por fazendeiros da região de Parauapebas, pegou o microfone que leva até as caixas de som instaladas no capô de um Fiat Uno e disse: “Esse gesto de marchar com eles é o melhor que podemos fazer. Exigindo justiça”. Um grande viva. “Caiu Maria. Caiu José. Mas na mesma hora levantaram 100 Marias e 100 Josés”, dizia uma mulher ao microfone durante o cortejo fúnebre. “Não vamos esquecer.”
No cemitério, outro carro de som organiza a entrada dos caixões. Falas. Microfones. Sindicalistas locais. Representantes. Movimentos sociais. O hino. “Verás que um filho teu não foge à luta.” Emoção. Os coveiros impacientes, apressados. Familiares querendo estender cada minuto. Pedem para abrir o caixão. Último toque. Última imagem.

Laísa Santos Sampaio, irmã de Maria, chora muito. Era amiga, confidente, admiradora da força da irmã. Como ela, era professora da escola. “O nosso cotidiano eram ameaças”, ela me diz. “A gente acordava com os cachorros assustados.” Caminhonete, moto, barulho noturno. Terror. A morte trouxe pânico. “A maioria do assentamento tornou-se inimigo, e torciam para isso acontecer.” Ela quer explicar como o projeto era viável. Como concordava com José e Maria de que valia mais a pena coletar castanha e produzir com as sementes do que vender a tora da árvore. Que não faz sentido transformar a floresta em carvão. Mas está abalada. Maria esteve com ela na manhã de sua morte. Laisa estava na escola quando recebeu a notícia de um “acidente”. Estranhou, sabia que José conduzia bem a moto. “Ele ainda estava vivo quando cortaram a orelha. E não viu ela morrer. Ela estava mais distante”, especula. “Eles se amavam.” Alguns familiares estão em Marabá—ficaram com medo de vir, mesmo com as autoridades.

Falas. Políticos. Todos querem o microfone. Querem audiência. Poucos assentados estão por ali. Menos ainda prestam atenção. Olhares preocupados. Tensão. Medo. O pistoleiro pode ser um deles. Deputado no microfone. Um senhor de idade, desembargador e ouvidor agrário. O gerente do Ibama. Secretário do Ministério do Meio Ambiente. A caixa de som amplifica o que dizem para um público disperso, crianças girando, adultos sentados na grama exaustos, olhares perdidos.

Um sujeito de camisa vermelha chega em uma caminhonete. Uma irmã de José observa estarrecida. Fica nervosa. Desmaia. Gilzão, como ele é conhecido, é próximo do fazendeiro José Rodrigues, um dos suspeitos de encomendar a morte. “Atrevimento”, diz uma irmã. “Cara-de-pau”, a sobrinha. “Não respeitam nem o luto”, comenta outro funcionário público. Comentários sussurrados.
Dois jovens encorpados, vestindo calças pretas e camisetas polos, aproximam-se de Gilzão. São policiais federais. Batem um papo. Cinegrafistas e fotógrafos filmam fingindo não filmar. “Um dos suspeitos está aqui”, diz um funcionário de Brasília. Procuro algum lugar onde possa me abaixar no caso de um tiroteio. Não, não vai ser o caso. A violência, nessa parte da Amazônia, segue a estratégia do terrorismo. Não confronta diretamente. Age de forma sorrateira e cruel, para intimidar no imaginário. Pela expressão de pânico entre os assentados, a estratégia parece ser eficiente. Gilzão é liberado da abordagem e mistura-se aos assentados. Segue junto do grupo que vai até a casa de Maria e José.

Familiares, todos assustados, temiam que o local fosse vandalizado, incendiado, por conter possíveis provas. Retiraram os pertences. Houve mais comoção. Um ambiente muito diferente de quando eu havia estado ali pela primeira vez. Na ocasião, Maria havia preparado uma galinha para o almoço. Um suco de cupuaçu: “O melhor suco de cupuaçu do mundo”, eu tinha dito, não só para agradar a senhora, mas realmente acreditando nisso. “O Zé Cláudio colheu o cupuaçu na floresta”, ela explica.

Em dezembro, pelo telefone, José Cláudio havia me dito, animado, que as castanhas estavam começando a cair. A floresta daria início à produção característica do período de chuvas, entre dezembro e abril. Nos fundos da casa, onde o casal estendia as castanhas para secar ao sol, a mesa de castanhas estava quase vazia. A engenhoca para descascar as castanhas estava lá—ele colocava a noz na posição vertical e era certeiro com esse abridor, de pressão, de metal. A semente saía limpa, sem resíduos de casca. As castanhas que ele colheu deveriam já ter sido processadas, virado farinha ou óleo.
Na porta de entrada da casa um cartaz desgastado estampa uma foto de Lula. Na parede do quarto de José está estendida uma bandeira do Flamengo. Sobre uma mesa, amontoada de papéis, a fita de pescoço do seu crachá de “palestrante” do TEDxAmazônia, que ocorreu em Manaus, em novembro do ano passado. Claudelice Silva dos Santos, sua irmã mais nova, recolheu a fita e olhou para mim. “Foi você quem convidou ele para ir lá.” Achei que se muita gente soubesse que ele estava marcado para morrer, e outros jornalistas denunciassem o drama dele e de Maria, a pistolagem local poderia se intimidar. A palestra fica disponível na Internet. Mas a conexão na região é lenta. O acesso é complicado. Sequer houve rumores da súbita fama de José Cláudio por ali. Na sua fala, um trecho tem sido repetido após ele ter predestinado sua morte: “Vivo da floresta, protejo ela de todo jeito. Por isso eu vivo com uma bala na cabeça a qualquer hora”.
As autoridades começam a chegar na casa. O senhor ouvidor agrário promete que vai deixar algum funcionário público tomando conta da residência para que não seja destruída. Os do Incra esquivam-se, dizem que não é sua função. A Polícia Federal faz o mesmo. O senhor mostra pulso. A promessa é feita para Claudelice, diante das câmeras—câmera de uma ONG, dos assentados e do cinegrafista que me acompanha, Marcelo Lacerda. A família segue buscando tudo o que pode e enfiando no carro. Gilzão também estava por ali. Algum suspeito poderia estar junto. Algum traidor. “Algum judas”, disse uma irmã de Maria. Alguém que teria informado os mandantes, que teriam informado os pistoleiros para irem “fazer o serviço”.
Zé Cláudio mostra as castanhas que colheu. Elas ficavam em uma mesa de madeira, nos fundos de sua casa, para secar, desidratar e assim permitir que fossem transformadas em farinha e em óleo. Foto: Felipe Milanez.
Eu queria voltar para a Majestade. Rever a linda árvore que Zé Cláudio me mostrou alguns meses antes, cheio de orgulho. As autoridades estavam preocupadas em conhecer o local e dar declarações para a mísera imprensa, que, por sua vez, estava preocupada em fazer seu trabalho. Eu sabia que Zé Cláudio poderia estar por lá, de alguma forma. E decidi correr na direção que havia seguido com ele. Desci a ladeira até o igarapé, passei pelo pé de jambo, cheguei até o açaizal. Sentia que estava sendo guiado. Vieram junto dois ou três amigos dele que achavam conhecer o caminho.
Depois do igarapé, a mata ficou mais fechada. A luz que rebatia na folhagem ganhou um ar esverdeado. Diversas crianças se juntaram na busca pela Majestade, elas gostavam de ir lá brincar. Mas o caminho enganava. Muitas castanheiras, todas com troncos longilíneos, elegantes. Eufórico, eu seguia por cada trilha que surgia e imaginava ser a única. Engano. Alguns gritavam que era mais por cima, outra trilha. Até que parte do grupo a encontrou. “Achei, é aqui”, ouvi uma voz doce e juvenil.
A Majestade foi mostrando sua imponência. À medida que me aproximei dela, as crianças espontaneamente seguraram as mãos umas das outras e rodearam o caule de 11 metros de diâmetro. Sete meses depois eu estava novamente diante desta imponente árvore amazônica. José Cláudio tinha sido enterrado esta manhã. E eu não sabia o que dizer à Majestade. “Esse é o orgulho da nossa floresta. Aqui é a minha propriedade, reserva Izabel Ribeiro, em homenagem ao nome da minha avó. E essa é a Majestade”, foi assim que José Cláudio me apresentou à Majestade. Em seguida, apontou para o chão. O que para mim parecia uma árvore caída, disse ele, “era um galho que caiu dela”. Todas as outras castanheiras ao redor, e eram muitas, seriam filhas da Majestade. “Pode dar uma volta ao redor da Majestade e se perder”, brincou. “Se depender de mim, essa árvore vai ficar por muitos e muitos anos aqui. Mesmo que ela venha a morrer, esse tronco vai ficar aqui.”
Na volta, subi na caçamba de uma caminhonete. Uma irmã de José Cláudio, a mesma que desmaiou, ainda chorava. “Ele sempre falava: ‘Eu tô preparado para morrer porque eu não vim para ser pedra. E quando morrer, quero ser cremado, e minhas cinzas jogadas nos pés da Majestade’.” A família não teve dinheiro para fazer a vontade dele. Clara, sobrinha, também na caçamba do carro, tenta apontar a Majestade no meio da mata. Não encontra. Mesmo imponente, a mata camufla sua copa. Mas ela ainda está lá. No mesmo lugar.