sexta-feira, 30 de março de 2018

Ideologia, democracia e outros saberes escusos

Tomo a liberdade de revisitar certos conceitos, apenas para refletir: o que está em jogo nas eleições deste ano no Brasil? Não vou me restringir a definições acadêmicas, e nem me submeter aos crivos dos ideólogos da Política, pois o que pretendo com esse debate é, pura e simplesmente, discutir os destinos de nossa Nação depois de 2018. Vivemos tempos estranhos, na opinião de um ministro do STF, na medida em que conceitos políticos tradicionais já não cabem na situação esdrúxula em que se meteu o Brasil. Ainda assim, tentarei ser didático, embora sem me ater a definições convencionais.

Apenas para contextualizar meu pensamento, quero recordar nossa herança de exploração dos escravos, de dizimação das populações nativas, de ditaduras sanguinárias e golpes palacianos, de conchavos políticos obscuros e corrupção dos valores éticos, sempre vinculados ao processo civilizatório que nos trouxe ao século XXI. O Brasil, antes de se tornar uma nação, já contribuía, ainda que à revelia, para o enriquecimento da Europa, através de saques, tráfico de escravos, extração de madeira, cacau, ouro e pedras preciosas, e do genocídio sistemático das populações indígenas, que dizimaram mais de 90% das etnias que aqui habitavam antes da chegada da esquadra de Cabral.

Entramos no século XX (abreviando a História, pois esse não é o escopo desse artigo), com já quase 90% de nossas florestas tropicais devastadas. A Amazônia ainda se mantinha relativamente preservada graças às dificuldades de acesso e à vastidão de seu território. A escravidão havia se acabado, mas os povos negros, mestiços e índios continuavam sendo tratados como rejeitos desprezíveis dessa sociedade elitista, que comandava a política e a economia dessa nova nação brasileira. A Segunda Guerra Mundial e a Ditadura Vargas acirraram ainda mais os preconceitos étnicos, enquanto o Brasil capengava na categoria de país terceiro-mundista, expressão forjada pelos Estados Unidos da América do Norte durante a "guerra fria", os verdadeiros vencedores dessas batalhas que envolveram toda a Europa, Ásia e parte do continente africano e península arábica.

O Capitalismo ressurgia na Europa que sobrevivera da guerra, sob o poder dessa nova potência emergente (EUA), embora seu conceito como doutrina econômica provenha da Revolução (Política) Francesa e da Revolução Industrial (Inglesa), aquela quanto aos conceitos estruturantes da sociedade em sua relação com os meandros da política interna, esta como responsável pela grande transformação provinda do processo de industrialização das atividades produtivas. Se Marx vivesse hoje, talvez não tivesse construído sua teoria econômica e política, não teria havido socialismo nem marxismo, e o mundo viveria, em sua plenitude, o sonho americano do Welfare State. Pura abstração!

É curioso observar que os rótulos forjados sobrevivem mais do que os conceitos a eles atribuídos. Não fora assim e hoje não atribuiríamos ao socialismo a denominação estranha de "Esquerda", da mesma forma que não chamaríamos de "Direita" àqueles que defendem o Capital como valor primordial de qualquer sociedade democrata. Observando a sociedade contemporânea, pouco resta a exigir das reivindicações trabalhistas que levaram à constituição do sistema socialista dos países do Leste Europeu, da China, de Cuba e de outros países que se alinhavam, até 1988, à antiga União Soviética. Seria a Democracia condicionada apenas ao sistema de livre mercado? Onde estaria, pois, a Ideologia, se o ideal humano sempre foi a liberdade ampla e irrestrita de pensamento?

Fato é que persistem na Inglaterra contemporânea a Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes, denominações estas cunhadas no início do século XVIII. De modo análogo, a "direita" simbolizava os simpatizantes de Napoleão Bonaparte (e se sentavam à sua direita), enquanto à esquerda se colocavam os simpatizantes da Revolução Francesa. É, portanto, um anacronismo atribuir as expressões esquerda-direita às correntes ideológicas marxismo-capitalismo, até por que, nos dias atuais, todos os regimes se confundem nas práticas do capitalismo global. Esquerda e direita se tornaram símbolos de oposição política na Europa monarquista e em dias atuais.

À parte esses termos obsoletos, consideremos, então, os valores atribuídos a essas duas correntes do pensamento político no século XXI. Aqueles valores pregados por Karl Marx já não se aplicam ao mundo contemporâneo. Já não existem as minas de carvão e os sistemas escravagistas de produção nos moldes dos séculos XVIII e XIX. Muitas conquistas foram feitas pelos trabalhadores, reduzindo o desequilíbrio nas relações trabalhistas entre patrões (cada vez um conceito mais difuso e superado) e empregados (agora empoderados por complexas legislações que regulam essas relações).

Países tradicionalmente socialistas, como a Rússia, a China, os países da "Cortina de Ferro" na antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) extinta em 1988, o Vietnam, a Coréia do Norte e Cuba se adaptaram à economia de mercado para sobreviverem. A estatização da Economia mostrou-se um equívoco insustentável, assim como a estrutura burocratizante dos países socialistas soviéticos. Hoje, na China, existem filiais de símbolos do Capitalismo, como a rede de lanchonetes Mc Donalds, bem como diversas fábricas de procedência americana, japonesa e europeia, que se aproveitam dos baixos custos de mão-de-obra dos países socialistas, onde existes fortes subsídios para os trabalhadores, talvez a última herança dos regimes fechados do comunismo internacional, para reduzirem seus custos e aumentarem sua participação no mercado internacional.

No entanto, apesar dessa "customização" dos regimes socialistas, restam sobreviventes desse "ancient règime" as nações contemporâneas que insistem em afirmar sua divergência ideológica com as nações do ocidente, mais bem-sucedidas que aquelas cuja herança socialista se preservou no mundo oriental, como a Rússia (em permanente crise econômica), China (que, embora tenha se capitalizado, ainda preserva seu sistema de governo centralizador totalitário) e Coreia do Norte (igualmente uma tirania), que sobrevive de subsídios da China e da Rússia, que ainda teimam em afirmar seu regime herdado da Teoria Marxista-leninista. Lamentavelmente, as experiências socialistas dos últimos dois séculos se tornaram ditaduras violentas, conforme o conceito de "ditadura do proletariado", termo cunhado por Joseph Weydemeyer, e adotado por Marx e Engels. No entanto, essa ditadura nunca foi conduzida pelo proletariado, mas pela nova aristocracia dominante.

E como caracterizar diferentes correntes ideológicas do mundo contemporâneo, se a dicotomia esquerda-direita, socialismo-capitalismo, ou estado revolucionário versus democracia social fracassou? É preciso refletir sobre o tema sem paixão e sem radicalismos. A atitude revolucionária de transformar a sociedade em busca de sistemas igualitários permanece válida e atual. No entanto, é difícil dissociá-la das ideologias antigas, uma vez que os partidos de esquerda sempre reivindicam a pluralidade ideológica enquanto lutam pelo poder, mas imediatamente a rejeitam, ao assumi-lo.

O Socialismo Soviético apoia governos totalitários como o da Síria, fomentando a guerra fratricida, conforme sua práxis totalitária. Da mesma forma, a propalada "Democracia Americana" serve de cortina de fumaça para ocultar interesses escusos, negociações inconfessáveis e venda de armas e munições a países em conflito nas inúmeras guerras regionais que persistem no mundo atual, principalmente no Oriente Médio. Nessas relações contraditórias, prevalecem os interesses econômicos às razões humanitárias. Não existe solidariedade nem ideologia quando se trata de exercer o poder para se obter vantagens econômicas e militares neste xadrez político das nações.

As grandes potências mundiais, capitaneadas pelas coalizões Rússia-China (e seus "satélites" do Sudeste Asiático) versus Estados Unidos-Europa (principalmente França, Inglaterra e Alemanha), têm como força motriz de sua hegemonia hemisférica os interesses meramente econômicos e militares, esquecendo-se que o mundo carece de paz para sobreviver às grandes transformações climáticas e de escassez crescente de recursos naturais, agravada pelo crescimento populacional. Nessa guerra não declarada, os argumentos ideológicos deixam de ter significado, prevalecendo o poder econômico e militar sobre as questões humanitárias e de sobrevivência do ser humano na Terra. Nesse contexto de conflitos generalizados e não-ideológicos, quem perde é apenas a humanidade.

Diante do exposto, falar de Ideologia em um mundo imerso em disputas mesquinhas é fingir que qualquer das partes tem razão, enquanto o "outro" é sempre o culpado de todas as mazelas humanas. Enquanto isso, o relógio biológico da Terra se aproxima do instante fatal em que a escassez de água e de alimentos nos forçará a um sacrifício que todos temem imaginar: a população da Terra precisará se reduzir aos níveis de 1900 para poder capitalizar os benefícios do desenvolvimento científico e tecnológico e salvar o planeta. Haverá paz no mundo antes da hecatombe mundial? Teremos condições de ocupar novos planetas habitáveis antes que a Terra entre em colapso? Estaremos preparados para viver em paz e encontrar soluções para a superpopulação e a perda da biodiversidade de nosso mundo antes do minuto fatal? Certamente, a resposta a essa indagações é, pura e simplesmente, "Não!". A Terra não sobreviverá a tamanhos desperdícios e devastação!...

domingo, 11 de março de 2018

O CAOS E A PERFEIÇÃO



O que me encanta é o CAOS, não a Perfeição!

É no Caos que se manifesta a Perfeição do Universo, e sua Beleza inquestionável!!

A Desordem universal é que nos leva a acreditar na perenidade do Infinito!

O contraponto do Caos não é a Perfeição, mas a uniformidade monótona da criação humana… a linha reta, o círculo, o monocromático das paredes, as monoculturas e os jardins dos palácios imperiais, onde a Harmonia quebra a complexidade do Caos…

O que me assusta é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é o Imponderável, o Imprevisível, o Inesperado, o Desconhecido!

A vida sem o Caos é o oposto do Ser Criador: são as regras, as normas, a rotina dos escritórios, os horários determinados pelo relógio, o previsível e o uniforme…

O que me motiva é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Surpresa, o Despertar, a Descoberta, a Invenção, a Inovação permanente!

O mundo sem o Caos é uma sucessão de fatos corriqueiros, cotidianos, um arrastar do tempo sem a beleza incontestável da descoberta, um mundo monótono, inútil e vazio, onde predominam as regras e as leis humanas, em detrimento da desordem do Caos…

O que me apavora é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Escuridão, o Passo no Vazio, a Busca da Perfeição sem jamais atingi-la!

O homem sem o Caos é um ser amorfo, desprovido de sensibilidade, incapaz de discernir entre o Eterno e o trivial, entre a matéria e o Espírito, entre o Bem e o mal…

O que me move é o CAOS, não a Perfeição!

O Caos é a Mola Propulsora da Humanidade, a Força Interior de todo Ser Vivente!

Sem o Caos, o mundo permaneceria na Idade das Trevas! Mas, talvez essa teria sido a Maçã de Adão e Eva, o momento em que o Homem se diferenciou dos animais e se tornou Dono do Universo… talvez, nesse momento de inflexão, o Mundo tenha começado a definhar, a se acabar, a se autodestruir… e a Perfeição do Universo, transfigurada pelo Caos, tenha deixado de existir, nos impelindo a colocar Ordem na Natureza… talvez a verdadeira Ordem seja o Império do Caos, e o permanente desequilíbrio de forças no Universo seja sua Lei Maior que o mantém vivo e eterno…

quinta-feira, 8 de março de 2018

A EXISTÊNCIA DE DEUS

De onde viria a necessidade e o conceito de divindades dentre os homens? Por que precisamos de um Deus? Quais revelações ou reflexões filosóficas sustentariam a hipótese de uma existência após a morte apenas para os humanos da Terra? Para onde iríamos depois dessa vida terrena, tão generosa para poucos e tão injusta para a grande maioria dos seres viventes? Enfim, por que acreditar em DEUS, se nada nos permite comprovar a sua inútil existência? À expressão Cristã "DEUS CRIOU OS HOMENS À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA" eu contraponho a minha: "OS HOMENS CRIARAM SEUS DEUSES À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA"!



Zeus, o deus supremo do Olimpo, o céu dos gregos

Percorrendo os passos da evolução da Humanidade ao longo dos séculos, desde que nos diferenciamos de nossos semelhantes, os macacos, percebemos que o conceito de Deus está associado ao desconhecido, àquilo que não pode ser provado, às lacunas do nosso conhecimento que nos faziam sentir pavor dos elementos naturais nos primórdios da civilização, dos poderosos felinos, anfíbios e mamutes, na formação da sociedade humana, e dos espíritos dos mortos ao longo de toda nossa história terrena. As divindades eram concebidas conforme essas crendices, associando-as a seres híbridos de animas e humanos, como na Grécia, no Egito e na Índia, nos séculos que antecederam a vinda dos avatares, profetas e santos.



"Ganesha, deusa hindu, misto de elefante e mulher"



Thot, deus egipcio do Sol



Apolo, o deus da beleza, e suas ninfas apaixonadas

Porém, já no século XVI, período das "Grandes Navegações", com cerca de um milhão de anos da existência do "homo erectus", ainda vemos nossos antepassados acreditarem nos mares povoados de seres mitológicos, muito semelhantes àqueles das civilizações precoces, mistos de serpentes e pássaros, capazes de afundar toda uma frota de galeões e devorar seus marinheiros. Com sua imaginação povoada de seres fantásticos, não é de se estranhar que esses povos criassem suas divindades com poderes malévolos e espírito vingativo e cruel. Pois foi dessa herança fantasiosa que nossa civilização se formou, e as religiões se constituíram e prosperaram.



Monstros marinhos, seres fantásticos da mitologia europeia no final da Idade Média

Os indígenas, habitantes desse território chamado Brasil, assim como os povos da pré-história, construíram sua cosmogonia com base em fenômenos e entidades naturais, como o trovão (Tupã), a cobra-canoa (dos índios do alto rio Negro), os espíritos da floresta, como o Xapiripë dos Yanomami, que eram invocados através da inalação de um pó alucinógeno, produzido com yãkoãna, resina de casca de árvores, enquanto os Ashaninka, índios do Acre, usam o Ayahuásca, também alucinógeno, mistura da erva "chacrona" e do cipó "jagube", em suas cerimônias espirituais... vê-se nesses resíduos de civilizações tradicionais, que o arcabouço de crendices, mitos e lendas persistiu a cinco séculos de dominação e extermínio. Hoje, grande parte dos remanescentes das populações indígenas do continente se apegou a seitas evangélicas, que fazem de seu livro "sagrado" a literatura essencial para suas crendices e o alimento para seu espírito desconsolado.

Voltando à nossa indagação inicial, por que precisamos de um Deus, seja ele qual for, que tenha poderes inimagináveis, conhecimento absoluto do passado e do futuro, onipresença e domínio sobre todas as coisas, vivas ou inertes, existentes no Universo? Por que haveria um INÍCIO para esse tempo/espaço infinito? E, sendo infinito, por que haveria de ter início e FIM? De onde surgiu tal conceito de infinitude das coisas e relatividade do espaço-tempo? E por que nossos espíritos/almas deveriam ir para algum lugar depois da morte, onde só existiria bondade e compaixão, se na Terra onde vivemos o mal prevalece sobre as virtudes humanas, sempre favorecendo àqueles que só se valeram do mal para usufruir dos privilégios desse mundo pleno de injustiças? Por que esse DEUS, ao criar o Universo, não o povoou apenas com criaturas do bem, vivendo com a fartura desse Universo, sem sofrimento, dor, ambição ou pavor? O que foi feito do nosso Paraíso Perdido, do nosso "Shangrilá"?

Certamente, essa discussão é tão interminável quanto inútil... porém meus argumentos me são suficientes para acreditar que todas as vidas terão um fim inexorável, que o espírito humano é apenas ficção e se esvanecerá na eternidade do tempo, a dialética teológica não sobreviverá à curta existência do ser, e as palavras proferidas pelos homens se tornarão tão insignificantes quanto o imenso vazio que predomina nos espaços entre as infinitas estrelas que cintilam no Universo...

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Eleições 2018 - Forças antagônicas em disputa pela Presidência


Talvez os candidatos não sejam exatamente esses que se apresentam na imagem acima. Lula será, provavelmente, banido pela Lei da Ficha Limpa. Dória talvez não resista ao poder dos caciques do PSDB e não queira medir forças em outra agremiação partidária. Alckmin poderá não captar a simpatia das forças de direita e tenha que se conformar com a busca pelo Senado. Marina poderá dividir seu eleitorado com outro candidato, em uma chapa que a coloque como vice, por falta de apoio popular às suas causas ambientalistas. E o temível Centrão ainda poderá surpreender, trazendo Michel Temer como um assombro inusitado, ou ainda o inexpressivo Rodrigo Maia como candidato da maioria do Congresso atual.

Mas ainda poderá haver novas revelações, como as inacreditáveis candidaturas de Collor, de Joaquim Barbosa ou de outro "Salvador da Pátria", um general, talvez, para destronar o troglodita Bolsonaro de sua posição de defensor da Pátria. Essas incógnitas se resolverão nas próximas semanas, colocando um fim nas especulações que circulam pelas redes sociais, sempre famintas de furos de reportagem, e a mídia cada vez mais interativa das redes de televisão do país. De qualquer modo, ainda são prematuras as expectativas e sondagens que alvoroçam o meio político em busca de candidatos "bons de urna".

Mas qual será a balança política que determinará os destinos da Nação brasileira nos próximos quatro ou oito anos? Seria um viés ideológico, como aquele que levou o PT de Lula ao poder em 2002? Seria um sentimento de ufanismo patriótico anacrônico, como aquele que levou os militares a se aventurarem na pior "performance" de sua história no golpe de 1964? Seria o imaginário popular, agigantado pelo poder midiático da Rede Globo a criar um novo Sassá Mutema collorido, prometendo a caça aos novos marajás da república recauchutada pelo petismo inconsequente das últimas três décadas? Seria, enfim, o renascimento de um poder popular nascido das massas trabalhadoras, a resgatar o lulismo dos movimentos sociais, massacrados pelas denúncias de corrupção e safadeza?

Cabe-nos a missão de tentar interpretar esse momento político de forma mais especulativa, na falta de certezas daqueles que sobreviverão ao crivo das negociações nada republicanas, que antecedem todas as campanhas eleitorais nesse país das bananas. Por isso, partiremos das candidaturas agora reveladas, não nos esquecendo que algumas perecerão no caminho das urnas, assim como as tartaruguinhas são devoradas nas areias das praias antes de chegar à segurança das ondas do mar. Não sem um posicionamento ideológico, mas com a possível "isenção" de quem deseja um país mais digno, ético e competente, farei minhas considerações acerca do significado de cada um dos candidatos.

Partindo de Lula, provavelmente banido da cena política pelos próximos dez anos, pela condenação e pelos processos que advirão no decorrer deste ano, o que lhe resta é interferir na escolha de um nome que o represente nas eleições de 2018. Haddad ou Wagner, pouco importa, nenhum líder consegue transmitir seu carisma ao sucessor. A alguns já surgem as figuras de Hugo Chávez e Maduro, querendo contestar minha afirmação. Porém, Maduro jamais resistiria à comparação, não fosse a pressão das armas a mantê-lo no poder. Da mesma forma, Lula não passará seus votos para o candidato do PT, que sofrerá mais uma amarga derrota nas urnas, trazendo-o de volta ao patamar de 10 a 15% do eleitorado da década de 1980. Portanto, o PT não emplacará a Presidência.

Vamos ao execrável Boslsonaro. Sua candidatura terá o mérito de nos revelar o tamanho da súcia de adeptos que têm no Brasil os armamentistas anacrônicos, que tentam fazer desse país uma cópia miniaturizada do desprezível modelo norte-americano. Esse capitão aposentado não conseguirá superar o primeiro turno, mas nos dirá qual o tamanho da extrema direita no Brasil. Será uma informação importante para análises e ações futuras daqueles que desejam fazer, de nosso país, uma Nação verdadeira. Portanto, olhos abertos, atitudes firmes de combate à farsa desse candidato, e argumentos sólidos!

Vamos analisar a dupla João Dória e Alckmin, pois o destino de ambos depende de decisões que se manifestarão nos próximos 30 dias. Alckmin representa a Velha República. É um estilo de governar, um modelo de fazer política que se superou pela evolução dos tempos, ficando no passado. Não acredito que sua retórica e seus discursos inflamem as massas a ponto de levá-lo ao Planalto. Portanto, o PSDB terá que fazer o inusitado, que é DECIDIR. Esse partido vem se notabilizando pela inércia na tomada de decisões, e continuará assim. Mas Dória não é pessoa de se conformar com a mesmice, e procurará outras siglas para sustentá-lo, caso se concretize a posição fracassada de Alckmin na disputa pela Presidência. Não faltarão partidos interessados em sua candidatura.

Da mesma forma, analisaremos a dupla Marina Silva e Ciro Gomes. Ambos têm pouca coisa em comum, mas padecem do mesmo mal: não têm eleitorado suficiente para levá-los ao segundo turno. O partido de Marina é fraco de representatividade, e só poderá mantê-la candidata se conseguir novas alianças que não comprometam sua plataforma de governo. Marina talvez seja a única candidata a apresentar uma verdadeira plataforma eleitoral, pautada por novos paradigmas políticos, econômicos e sociais. O resto é apenas "mais do mesmo". Porém, Ambientalismo não repercute nas mídias oficiais e não consolida apoios do eleitorado capitalista. Portanto, Marina não passará para o segundo turno, a não ser que emplaque uma chapa com um candidato a vice-presidente com apoio empresarial. É aí que entra o velho Ciro Gomes, conhecido Desenvolvimentista sempre à procura de uma oportunidade para chegar à Presidência da República. Sozinho não representa nada, mas com Marina Silva talvez consiga postular até a Presidência. Essa negociação poderá mudar o destino do país e consolidar uma dupla capaz de motivar o eleitorado. A conferir.

O Centrão é a grande incógnita. Representado por miríades de políticos fisiológicos, capazes de vender sua própria alma ao Diabo para se manterem próximos ao poder, esses nanicos têm em sua coalizão a força de capitalizar votos, ainda que pelos meios mais sórdidos, como têm sido as eleições e o exercício do poder no Brasil da Nova República, desde que se desvencilhou dos grilhões da Ditadura Militar. O Centrão não gosta de candidaturas à Presidência. Assim como o MDB, prefere atrelar-se a presidentes depois de eleitos, para garantir maiorias nas votações do Congresso Nacional. Porém, isso mudou com Temer. Ninguém imaginaria que um político soturno, acostumado a agir nas sombras e nas catacumbas do poder em Brasília, Temer ressurge das cinzas (ou do caixão de Drácula) para se tornar presidente, justamente traindo sua parceira Dilma Rousseff para chegar ao Planalto. Com isso, "driblou toda zaga, e fez gol de letra" no impeachment de 2016.

É nesse "golpe de mestre" que se situa a incógnita das eleições: Temer conseguiu escapar (não ileso, tampouco ferido mortalmente) das armadilhas de Janot, postergando suas condenações para depois de entregar o poder. Daí inferir-se que Temer ambiciona continuar como inquilino do Jaburu e do Planalto, pois enquanto Presidente, terá as regalias do poder e a proteção da Lei para afastá-lo das grades da Papuda. E seu trunfo é a Intervenção Federal no governo do Rio de janeiro. Espertamente, envolveu as Forças Armadas em seu plano de poder, pois o fracasso da intervenção será a humilhação dos militares. Mas o sucesso da mesma será a pavimentação de seu caminho de volta ao poder. Portanto, cooptou para si o brio e o orgulho das forças militares!

E nas urnas, como se comportaria esse arremedo de vampiro? Ele teria, a priori, o apoio incondicional das populações massacradas pelos crimes de tráfico de drogas e armas da antiga capital federal. Quem não o apoiaria se vencesse a pior guerra do tráfico que o Brasil já enfrentou? Quem não reconheceria seu mérito se liquidasse com o crime organizado do Comando Vermelho se seus líderes fossem mortos ou trancafiados nas prisões federais? Quem não lhe estenderia o tapete vermelho dos votos para levá-lo de volta ao Palácio depois de tamanha façanha de acabar com a pior criminalidade do país? Certamente, Temer é um candidato possível, até provável, caso se saia bem dessa empreitada! Ele quebraria o atual equilíbrio de forças na disputa eleitoral, apenas com essa jogada magistral, e nenhum outro candidato sobreviveria na contenda de 2018.

Diante desse quadro provisório, só nos resta analisar as plataformas dos presidenciáveis. Afinal, especulações servem para posicionar candidatos, mas não se aplicam na decisão de cada um para escolher aquele que o represente na luta pelo poder. Voltemos, pois, aos competidores. Primeiramente, olhemos para Alckmin, certamente o mais experiente gestor público do Brasil, pela sua longa trajetória política em cargos executivos do Estado de São Paulo. Ele tem, como currículo, um estado bem administrado, com estradas de primeiro mundo, escolas bem equipadas e com bons professores, economia equilibrada, grandes investimentos em infraestrutura e a criminalidade com índices em evolução regressiva.

Dória é um paradoxo. Suas ações na curta gestão da maior cidade da América do Sul tem sdio pautada por ações espetaculosas, midiáticas e contraditórias. Porém, seu público o admira justamente pelo inusitado de seus atos, não pela sua eficiência. Dória vende a imagem de um novo estilo de governar, o que não significa ser um gestor competente. Porém, como aquilo que agrada não precisa ser aquilo que deveria ser feito, ele tem um bom desempenho nas urnas e poderia incomodar, pelo menos no primeiro turno. Dependendo do seu concorrente, no segundo turno poderá ser imbatível.

Bolsonaro é um candidato apenas de termômetro para entendermos melhor a dimensão política da extrema direita no Brasil. Porém, a fragmentação das candidaturas poderia levá-lo ao segundo turno e tornar a disputa um plebiscito entre as forças antagônicas dos extremos ideológicos do Brasil, com grandes possibilidades de vitória. Seria um risco imenso levá-lo para a decisão final. Assim como Trump, o psicopata norte-americano, Bolsonaro poderia levar o Brasil para um novo período de ditadura militar, de consequências imprevisíveis. Seja como for, esse indivíduo não teria a menor competência para governar.

Marina Silva precisa ser analisada sob dois enfoques: como presidente e como parceira de Ciro Gomes. A proposta de governo de Marina, ainda que incompleta e não divulgada pela imprensa, leva-nos a refletir acerca dos rumos de nossa Economia sob o atual modelo capitalista de produção intensiva de commodities. Esse modelo tem conduzido o país a uma armadilha do tempo. Durante muitos anos o resultado da balança comercial do Brasil tem sido sustentado pelo Agronegócio, e isso é inegável. Porém, o custo ambiental dessa opção econômica levará à escassez de recursos naturais em poucas décadas. O Brasil se posiciona, descaradamente, como o "celeiro do mundo", expressão cunhada nos tempos de Getúlio Vargas, e incensada pelos militares durante a ditadura de 1964-1985.

Ocorre que esse sucesso momentâneo tem um altíssimo preço, que será drasticamente cobrado da população brasileira e do resto do mundo. Outros países, como a China, a Indonésia e os Estados Unidos já trilharam esse mesmo caminho, e os resultados foram similares: perda de biodiversidade, empobrecimento do solo, uso indiscriminado de agrotóxicos para manter a produção e hegemonia econômica em detrimento de outras nações. A Indonésia nem usufruiu desse suposto "benefício", e submeteu seu próprio povo à escravidão para satisfazer a grandes multinacionais da indústria química e farmacêutica.

A proposta ambientalista está fundamentada em outros paradigmas, de uma economia sustentável e de boas práticas que não comprometem a vida no planeta. Poucos sabem disso, pois não interessa a ninguém proteger a Natureza. Porém, o destino da Humanidade está condicionado a mudanças nos modelos de produção, que nada têm a ver com capitalismo versus comunismo. A produção familiar, agroflorestal, sintrópica depende apenas de reduzir a ambição dos latifundiários e distribuir com justiça e igualdade as riquezas desse mundo. Embora se pareça com as propostas socialistas, nada tem a ver com aquilo que pregam os ideólogos marxistas, que veem na industrialização de base  o Grande Salto para o Futuro das novas civilizações socialistas. Isso existiu nos século XIX, quando Marx, Engels e outros filósofos conceberam seus modelos de sociedade.

Pois bem, Marina Silva tem uma proposta baseada na proteção do Meio Ambiente e das populações tradicionais. Sua visão de Sustentabilidade está marcada pelos paradigmas propostos nas reuniões mundiais de discussão das Mudanças Climáticas havidas durante as últimas quatro décadas, e suportadas por pesquisadores do clima e de todas as especialidades que dependem dos recursos naturais para sobreviver. Em anos subsequentes, novas discussões e reuniões trouxeram à baila o assunto de desenvolvimento sustentável, cada vez mais embasado por pesquisadores que admitiam que as transformações climáticas eram consequência das ações antrópicas.

Cito abaixo quatro marcos fundamentais para reversão das mudanças climáticas:

1992 - Conferencia sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, UNCED, Rio/92 - Criação da Agenda 21. Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis

2002 - Em dezembro, a Assembléia Geral das Nações Unidas, durante sua 57ª sessão, estabeleceu a Resolução nº 254, declarando 2005 como o início da Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável, depositando na Unesco a responsabilidade pela implementação da iniciativa.

2007 - Protocolo de Kyoto: Países se comprometeram a reduzir emissão de gases. O Protocolo de Kyoto é um acordo internacional entre os países integrantes da Organização das Nações Unidas (ONU), firmado com o objetivo de se reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa e o consequente aquecimento global. (22 de mai de 2007)

2012 - Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, foi realizada de 13 a 22 de junho de 2012, na cidade do Rio de Janeiro

Curiosamente, o Brasil se engajou nesses projetos, mas, justamente em 2012, durante a Conferência Rio + 20, Dilma Rousseff assinou o decreto que homologava as mudanças do Código Florestal que colocavam em risco de morte os Biomas Brasileiros. Depois dessa mudança jurídica, a devastação da Amazônia, do Cerrado e demais biomas se tornaram cada vez mais dramáticas e devastadoras, dando total respaldo ao agronegócio e aos latifundiários para acabar de vez com nossas florestas, cursos d´água e vida animal, não apenas em áreas ainda não exploradas, mas também dentro de reservas indígenas e em unidades de conservação federais e estaduais. Foi o início do fim dos biomas brasileiros.

Cito mais um quinto acordo, mais recente (de 2015), de fundamental importância para a redução das emissões de carbono na Natureza: o Acordo de Paris. Na 21ª Conferência das Partes (COP21) da UNFCCC, em Paris, foi adotado um novo acordo com o objetivo central de fortalecer a resposta global à ameaça da mudança do clima e de reforçar a capacidade dos países para lidar com os impactos decorrentes dessas mudanças.

O Acordo de Paris foi aprovado pelos 195 países Parte da UNFCCC para reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE) no contexto do desenvolvimento sustentável. O compromisso ocorre no sentido de manter o aumento da temperatura média global em bem menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais e de envidar esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

Para que comece a vigorar, necessita da ratificação de pelo menos 55 países responsáveis por 55% das emissões de GEE. O secretário-geral da ONU, numa cerimônia em Nova York, no dia 22 de abril de 2016, abriu o período para assinatura oficial do acordo, pelos países signatários. Este período se encerrou em 21 de abril de 2017.

Infelizmente, com a eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, esse acordo se tornou seriamente ameaçado, comprometendo quase uma década de negociações e reformulações durante os dois governos de Barack Obama.

Nenhum outro candidato à Presidência do Brasil, além de Marina Silva, defende esses princípios e esses valores fundamentais para a sustentabilidade sócio-econômico-ambiental. Por que será? A quem mais interessa a destruição de nossas riquezas naturais? Por que privilegiar os grandes latifúndios senão para aumentar a concentração de rendas e riquezas nas mãos de tão poucos empresários? Por que a Rede Globo e outras grandes redes de comunicação apoiam esse processo de devastação nacional?

Espero que minhas considerações colaborem com a reflexão a respeito das alternativas de poder que, certamente, determinarão o futuro de nossa Nação e da própria Humanidade. O Brasil detém cerca de 12% de toda biodiversidade do planeta. Toda política que ameace esses ecossistemas estará ameaçando a própria existência humana na Terra. Portanto, as escolhas feitas nesta e nas próximas eleições terão consequências imprevisíveis para a sobrevivência do ser humano e das próximas gerações. Infelizmente, tenho pregado inutilmente... "pérolas aos porcos", como dizia o Profeta. Nada mais posso fazer senão proferir meus discursos para aqueles que têm "ouvidos moucos" para a Verdade...

Caberá a cada um dos brasileiros, nas urnas e em sua consciência, tomar a decisão final.

sábado, 14 de janeiro de 2017

O Ciclo dos Anos e a Realidade


Quem nunca pensou que a mudança de calendário é mera convenção e conveniência, seja para dar sentido à vida, seja para estimular o consumismo, seja para eleger um representante de alguma religião como Salvador da Humanidade? Assim, pelo calendário cristão, estamos no ano de 2017; pelo judaico, no ano de 5.778; pelo calendário islâmico, estamos no ano de 1395...

O fato é que o Universo teria, de acordo com as estimativas mais recentes, 14 bilhões de anos! Assim, o ano novo atual seria da ordem de 14.123.456.789! Belo número, não é mesmo? Precisaríamos de uma calculadora para fazer as contas de quanto tempo se passou desde que uma tremenda explosão teria dado origem ao Universo! Mas... e antes da explosão? O que existia?

Mas outro fato invalida essa referência primária, pois não sabemos quando o Sistema Solar se formou... seria há 4.000.000.000 de anos solares terrestres? 
Qualquer que seja o marco inicial dos anos que adotássemos para representar quantas vezes a Terra girou em torno do Sol, isso nada significaria diante da imensidão do tempo que nos trouxe, de modo efêmero, a viver por aqui...

Os ciclos terrestres são quase infinitos para nossa percepção mortal e nossa pequenez diante da relevância que representamos nesse contexto universal. Assim também são nossas pequenas crenças, crendices estúpidas ao supormos que nossa insignificante mente seja capaz de conceber a existência de um deus que nos transformou em humanos a partir de uma herança genética simiesca!

No entanto, esses pensamentos irrelevantes nos confortam diante da probabilidade de que nossa presença humana no infinito seja sequer percebida por algum suposto Ser Superior, Onipresente e Eterno. Na verdade, somos NADA, partícula inexpressiva, fugaz, irrelevante no contexto global da Vida...

Diante do exposto, evidentemente, tanto faz o que venhamos a sentir, ou pensar, escrever, realizar, produzir, legar para nossos descendentes... tudo será apenas um irrelevante grão de areia no deserto do Saara, uma minúscula e imperceptível gota de água nos oceanos terrestres, uma desprezível partícula de poeira na imensidão da atmosfera que nos fixa à superfície da Terra...

Os ciclos dos anos servem apenas para marcar nossa individual presença na vida, ciclos de chuva e estiagem, de plantações e colheitas, de nascimentos e mortes, de despertares e adormeceres, de crescimento e envelhecimento... nada é permanente nesse universo, e dele nada levaremos, sequer lembranças! 

A Realidade também não existe, pois cada indivíduo percebe o mundo conforme sua pequena bagagem de conhecimentos, igualmente fugazes e efêmeros, que se mostrarão equivocados para as gerações que nos sucederão nesse caminhar infinito e sem rumo. Portanto, a Vida é, tão somente, uma ilusão do existir!...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Carta Aberta ao Ministro da Justiça

Brasília, 09 de dezembro de 2016

Excelentíssimo Senhor Ministro da Justiça
Dr. Alexandre de Morais

Prezado Senhor

Na qualidade de cidadão brasileiro, servidor público federal e indigenista, venho a declarar meus sentimentos acerca de informações que circulam pelos meios sociais, pela imprensa e pelos corredores da Fundação Nacional do Índio, onde, com muito orgulho, trabalho desde 2010 como agente em indigenismo.

Nesses pouco mais de seis anos de dedicação exclusiva à causa indígena, já fui Coordenador Regional do Alto Rio Negro, por um ano, especialista em geoprocessamento, por quatro anos, e servidor da Coordenação Regional do Sul da Bahia. Participei da extrusão de invasores de terras indígenas no Mato Grosso (Marãiwatsédé, etnia Xavante) e no Maranhão (AWA, etnia Awa-Guaja)). Também participei de diversas ações de fiscalização, Gestão Ambiental e Ccapacitação indígenas nas terras Trincheira Bacajá, etnia Mebengokrê, mais conhecida como Kayapó (Pará), Arariboia, etnia Guajajara (Maranhão), Waimiri-Atroari, etnia Kinja (Amazonas) e Povos Isolados da terra indígena Massaco (Rondônia).

Posso, desta feita, afirmar que, apesar de meus poucos anos de vivência com populações indígenas, tenho um envolvimento absoluto com suas tradições, suas crenças e sua identidade cultural, indissoluvelmente mesclada à cultura e civilização da Nação Brasileira. Impossível se pensar o Brasil sem as suas mais de 300 etnias, mais de 600 terras indígenas, mais de 200 línguas e variações, sua riqueza étnica e cultural sem paralelo no mundo!

A FUNAI, Fundação Nacional do Índio foi fundada em 5 de dezembro de 1967, portanto há quase meio século! Sucedeu ao SPI, Serviço de Proteção ao Índio, criado em 20 de junho de 1910, portanto, há 106 anos! Ambas as instituições, com todas as suas falhas e mazelas, foram as escolas do Indigenismo Brasileiro, e dentro de seus quadros teve o orgulho de possuir grandes e valorosos sertanistas, indigenistas e servidores que deram até mesmo suas vidas para defender esses povos naturais da Terra Brasiliensis.

Hoje, diante dessa História de lutas e de sofrimentos desse povo, massacrado pelas sucessivas ondas de preconceitos e ambições desmesuradas, vemos ameaçada a sua existência, por uma decisão inaceitável, inadmissível, injustificável! O Patrimônio Indígena não pode ser dissociado da existência da FUNAI. Os povos indígenas, extremamente vulneráveis em sua situação de isolamento, principalmente na Amazônia, mas também dentro de nossa sociedade, não pode prescindir da nossa instituição para resistir à ação predatória do entorno e do interior de suas terras: extração de madeira, caça de animais selvagens, garimpo, incêndios criminosos, tráfico de drogas, inclusive bebida alcoólica, prostituição, aliciamento ao crime organizado, entre tantas outras ameaças constantes.

Diante do exposto, solicito que tal decisão, se de fato existe, seja mais debatida com a Sociedade, com os especialistas em povos indígenas, com os servidores da FUNAI, com as ONG´s e associações indígenas e com todos aqueles que sabem, mais do que ninguém, a importância, o valor e a riqueza que representam, para a Nação Brasileira, os nossos Povos Indígenas! Caso a FUNAI seja mutilada e esfacelada, sua existência estará profundamente ameaçada, como nunca foi até hoje, apesar de todos os processos de matança e de genocídio a que foram submetidos durante os mais de 500 anos de formação do Brasil.

Na expectativa de que o Bom Senso e a Justiça prevaleçam, subscrevo-me, respeitosamente,

João Carlos Figueiredo
Agente em Indigenismo (SIAPE Nº 1818218)
Fundação Nacional do Índio
(61) 99812-5193 – (61) 3247-7041

Protocolo na Ouvidoria do Ministério da Justiça: 122160

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

OS EQUÍVOCOS DA ESQUERDA BRASILEIRA

Desde a transição democrática de 1985, quando os generais deixaram o Palácio do Planalto, as esquerdas lutaram para conquistar o poder, fazendo crer à Nação que eles tinham um projeto de governo. Foram várias tentativas, que só terminaram por dar certo porque o neoliberalismo de Fernando Henrique sepultou de vez a ideia de que era possível unir a intelectualidade nacional em torno de um nome respeitável. FHC traiu o pensamento socialista! Mas também só deu certo porque Sarney, Collor e Itamar fizeram tamanha confusão no país que o povo até acreditou que um sindicalista poderia cuidar da Nação com mais competência.

Os planos econômicos que tentaram colocar nossa Economia nos eixos foram um tremendo desastre! Uma sucessão de projetos mirabolantes que acabaram por derrubar o presidente Collor, envolvido até o pescoço em denúncias de corrupção, e até um episódio de conspiração capitaneado pelo seu superministro PC Farias, que acabou sendo assassinado ao lado de sua amante. Parece enredo de romance policial, mas é a pura realidade tupiniquim! FHC teve a sorte de entrar quando todas as tentativas esdrúxulas já tinham sido tentadas e... fracassado! Até Zélia Cardoso de Mello (parece que todos eram de Mello...) pisou na bola e sequestrou a poupança e o faturamento de todas as empresas. Supermercado e posto de gasolina viraram agência bancária pela falta de liquidez dos ativos financeiros...

FHC cometeu muitos erros, mas teve o bom-senso de cuidar da Economia da mesma maneira que cuidamos de nosso orçamento doméstico, ou seja, promulgando uma lei onde só se podia gastar o que se tivesse arrecadado. Lei óbvia, mas funcionou! E ficou sendo conhecida como a Lei de Responsabilidade Fiscal que, depois, os governos do PeTê cuidaram de desmoralizar e tudo voltou a ser como antes no quartel de Abrantes! Passou-se a gastar irresponsavelmente, até que o Brasil implodiu! As "belas" políticas públicas que tornaram o partido idolatrado, salve salve!, mostraram que eram apenas bolhas assassinas, prestes a explodir, como o fizeram depois da reeleição da gerentona do PAC, na maior fraude eleitoral de nossa História! Sim, porque, "nunca, na história desse país", ninguém roubou tanto, e tão descaradamente como o PeTê e sua gang de malfeitores!

Mas eles venderam bem o seu peixe, e durante anos conseguiram ludibriar não apenas o rebanho de cordeirinhos beneficiados pelo Bolsa Família, mas também boa parte do empresariado, iludido por medidas protecionistas voltadas a disfarçar a tremenda crise econômica, social e política que se avizinhava! O que não se esperava é que houvesse uma rebelião sendo engendrada nos calabouços do próprio governo: a turma da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça Federal estava planejando uma enorme operação que marcaria para sempre a História do Brasil depois de Cabral: a Operação Lava Jato! De repente, um bando de delatores entregou o ouro, a prata e todos os tesouros guardados a sete chaves no Palácio da Alvorada! E o Brasil, finalmente, despertou!

Os escândalos da Petrobrás eram apenas a ponta do iceberg do que havia sob aquela superfície onírica da esquerda brasileira, encantada consigo mesma, imaginando-se invencível e acreditando que o Brasil, enfim, se tornara a Pátria Livre do Comunismo Tupiniquim! Aqueles que estavam por trás de Lula, e que fizeram crer a todos que Lula era, de fato, um gênio que governava apenas com sua cabeça e com suas ideias magistrais, de repente viram que o feiticeiro dera o golpe nas esquerdas e colocara uma tresloucada no poder, capaz de bagunçar todo o esquema montado para captar propinas e financiar o partido dos trabalhadores.

Dilma caiu por incompetência própria, mas teve o mérito de desvendar o mistério que envolvia o poder do caudilho Lula: ela derrotou seu próprio criador, e abriu caminho para o "golpe" do impeachment! Sim, devemos a Dilma e seu séquito de brancaleones a estupidez de "quebrar o encanto" da "intelectualidade socialista" do Brasil! Não fosse ela e o poder ainda seria deles, articulando teorias conspiratórias contra a infeliz direita, que nem líderes competentes o suficiente possui para afrontar a fúria dos sindicatos pelegos e a verborragia dos teóricos dos partidos comunistas travestidos em "democratas"!

Onde foi que o PeTê errou? Em que momento o partido se esfacelou e deixou que o segredo, guardado a sete chaves, fosse desvendado e tornado público para a população estarrecida? De repente, por um simples passe de mágica, o espelho se quebrou e revelou a verdadeira face de Dorian Gray: o partido envelhecera e fora incapaz de admitir sua caquética figura! Os planos de governo mostraram-se falsos, as políticas públicas "socialistas" evidenciaram sua pior face de neo-capitalistas atrelados às oligarquias centenárias do agronegócio! A realidade se desnudou na frente do espelho, mas este era transparente e o rei estava exposto à opinião pública! Suas "vergonhas" foram, afinal, apresentadas ao povo enrubescido pela vergonha!

E o que restou de verdadeiro desses 14 anos de história?

Os movimentos sociais foram, de fato, empoderados! Uma nova classe de lideranças populares aprendeu a reivindicar seus direitos, enfrentando a aristocracia neo-colonial. Os indicadores sociais melhoraram, estimulados pela oportunidade que se abrira na Economia mundial. O emprego cresceu durante 12 anos, assim como a renda média do brasileiro. O Brasil avançou entre os países dos BRICS, tornando-se uma respeitável liderança no contexto internacional. Porém, bastaram dois anos de completa desorganização política, econômica e social para se perderem todas essas conquistas, "vitórias de Pirro" desmascaradas pela insensatez de uma única governante! O "golpe" estava preparado! De um Congresso corrupto e desmoralizado surgiram os arautos da "revolução desarmada"! Um líder sem caráter conduziu esse processo, tornando-se vítima de sua própria arrogância...

Hoje podemos dizer que não houve vencedores. Quem ficou com a coroa também está "marcado para morrer", denunciado pelos mesmos crimes que cometeram os antigos "donos do poder"! Agora, esses esfarrapados "vencedores" se arrastam pelos corredores do Congresso, tentando articular uma trégua imoral como aquela dos "inocentes" dos mesmos pecados, pelos quais condenaram o PeTê: corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de influências, formação de quadrilhas, enriquecimento ilícito e abuso de poder!

Mas a questão que se oferece à análise é outra: existiu de fato uma "esquerda" no poder? Quem foram os ideólogos que sacrificaram o líder sindical em nome de uma revolução cultural à brasileira? O que queriam esses conspiradores? Ainda podemos tratar a Política, em sua mais "nobre" acepção, como um dualismo esquerda-direita, como era compartilhado o poder na Revolução Francesa do século XVIII? Faz sentido essa dicotomia, ou estamos apenas lidando com uma figura de linguagem, sem ressonância ou embasamento teórico em um mundo em transformação, em que a dualidade é pobre e desprovida de inteligência?

A Ideologia, afinal, acabou?

A dinâmica social, a diversidade e a complexidade das forças políticas que interagem nessa arena do século XXI ainda permitiriam se lidar com o poder na forma que este se apresenta para o mundo dito "civilizado"? Quais seriam as principais demandas da população mundial, ameaçada pela fome, pela seca, pela exaustão dos seus recursos naturais e por um fenômeno ainda controverso chamado simplesmente de "Mudanças Climáticas"? Faz sentido lutar por um poder central quando o mundo se dispersa na diversidade de produtos, conceitos, utopias, realismos fantásticos e tecnologia avassaladora que nos comprime contra as dobras do tempo?

O mundo enfrenta, provavelmente, sua crise mais radical: a superpopulação versus a escassez de recursos. Hordas de migrantes percorrem a Europa, fugindo de uma guerra que ninguém quer, mas todos alimentam, por ódio, por vaidade, por poder, por vingança não se sabe contra o que, ou contra quem, tornando a vida, no Velho Continente, insuportável e contraditória... mata-se por nada, morre-se sem saber por que, vive-se pela simples necessidade de sobrevivência, justamente na porção mais intelectualizada e mais rica de conhecimentos que a civilização humana já produziu. O terrorismo tomou feições incontroláveis...

E ainda temos a audácia de discutir IDEOLOGIAS?

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

REIS DO AGRONEGÓCIO


Encontrei, finalmente, alguém que representa a minha voz e a minha ideologia! Sim, porque aquilo em que eu acredito é na VIDA! na NATUREZA! na JUSTIÇA! na HUMANIDADE (mas não essa, do #agronegócio)! Precisamos parar os #latifundiários antes que eles acabem com o mundo! Chico César diz, em sua mensagem lírica, aquilo que eu apregoo há tantos anos, falando no deserto, para surdos, para pessoas que não são capazes de refletir antes de aprovar! Que batem palmas para a #REDEGLOBO e suas mentiras! Se o mundo caminha para o caos, para a fome e a sede, se a humanidade segue pelos pés dos retirantes das secas e das guerras, a culpa é, certamente, daqueles que se apropriam do que é do mundo, sem piedade pelos exilados do extremo oriente e da África... Lamentavelmente, o povo, essa horda de acéfalos paralíticos, somente se aperceberá da realidade quando já não mais houver saída.

ESTE SERÁ, DORAVANTE, O MEU HINO!


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Produção do livro "Meu Velho Chico"



Crowdfunding é uma iniciativa fantástica, democrática e justa de se viabilizar um projeto sem ter que depender de um governo ou de grandes empresas. Quem financia o projeto são nossos amigos e familiares, que conhecem o nosso trabalho e o compromisso que temos com as causas que defendemos.

Como vocês sabem, minhas causas são o AMBIENTALISMO e os POVOS INDÍGENAS! E nada mais coerente e compatível com essas causas do que a EXPEDIÇÃO que realizei em 2009 pelo rio SÃO FRANCISCO!

Meu livro relata justamente os problemas que esse fantástico rio enfrenta diante da devastação cada vez mais intensa, provocada pela exploração descontrolada de nossos recursos naturais, seja pelo desmatamento de suas margens, pelas hidrelétricas mal planejadas, e agora pela transposição de suas águas, irresponsavelmente construída numa das piores crises hídricas que o Velho Chico está sofrendo. Mas o livro fala também de um povo encantador, hospitaleiro e simples, que me acolheu em suas casas, generosamente, sem sequer me conhecer! Jamais me esquecerei dessa gente humilde e pura!

E é a essa generosidade que eu agora recorro, a vocês que me acompanham aqui, em minhas manifestações, sinceras e emocionadas, para viabilizar o meu projeto! A cada doação acima de 100 reais, sendo publicado o livro, enviarei um exemplar autografado como retribuição. Para que isso seja possível, ao efetuar a doação, não se esqueçam de preencher todos os dados de identificação, principalmente seu nome, telefone e endereço completo.

Hoje é o segundo dia de campanha. Eu e Armando Gonçalves Junior fomos os únicos canoeiros a percorrer toda extensão do rio São Francisco, da nascente até a foz, um percurso de 2.700 quilômetros. Mas não é apenas o aspecto de aventura que nos motivou, embora tenha sido a maior aventura de minha vida. Foi a grandiosidade do rio, a diversidade cultural dos povos ribeirinhos, a gravidade dos conflitos fundiários e a tristeza de ver esse gigante agonizando diante da falta de ações governamentais efetivas para sua revitalização!

Hoje, o que me motiva a perseverar na publicação do meu livro é saber que precisamos mobilizar a opinião pública, conscientizando a todos sobre a necessidade inadiável de preservação da natureza. No livro, eu relato minha visão desse rio mágico e inesquecível e sua população generosa e carente de atenção do Estado brasileiro... A novela "Velho Chico" mostra essa realidade de forma romanceada, mas eu estive lá! Vivi cem dias remando em suas águas! Convivi com os ribeirinhos! Dormi em suas casas e me alimentei de sua comida e de suas histórias! Senti na pele e na carne os seus problemas!

É disso que falo em meu livro! É para tornar público o meu relato que peço a ajuda de vocês! Colaborem com meu projeto doando qualquer quantia, pois tenho certeza que é para uma causa nobre. Não quero ganhar dinheiro com a publicação do livro, mas apenas levar adiante a palavra de um povo sofrido e oprimido por grandes latifundiários e pelas obras irresponsáveis de tantos governos corruptos que se aproveitam da miséria dessa gente para se enriquecer desonestamente!

É meu compromisso doar cada centavo que eventualmente ganhar com o livro para as populações ribeirinhas! Ao término dessa jornada levarei pessoalmente três exemplares para cada comunidade que me acolheu! Entregarei a cada um minha mensagem de esperança, que terá sido construída com a ajuda de todos vocês! Serei grato a todos que colaborarem com essa missão!


Para fazer sua doação, clique aqui: 
Expedição "Meu Velho Chico" - campanha para publicação do livro
  

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O Ocaso das Esquerdas e do PT

O Partido dos Trabalhadores (PT) é um partido político brasileiro, fundado em 1980, e integra um dos maiores e mais importantes movimentos de esquerda da América Latina. No início de 2015, o partido contava com 1,59 milhão de filiados, sendo o segundo maior partido político do Brasil, depois do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), com 2,35 milhão filiados. É o maior partido na Câmara dos Deputados. [fonte: Wikipedia]

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Quando surgiu, em 1980, o PT representava a Mudança de Paradigma pela qual toda juventude socialista brasileira se mobilizava, tanto sob o ponto de vista ideológico, como político e ético. Estávamos em plena ditadura militar, já em processo de dissolução, abalada pelos próprios métodos de combate aos movimentos de esquerda, sobreviventes da forte repressão política dos anos 1964-1975, denominados "Anos de Chumbo" devido às torturas e assassinatos promovidos pelas forças militares, que acreditavam ser donas de toda verdade que existia nesse mundo, dentro e fora das casernas.
Muitas foram as lutas e os debates que cercaram a formação desse partido emergente, ora sem uma ideologia declarada, ora de extrema esquerda, o que se evidenciou, com o tempo, nas diferentes correntes ideológicas que se formaram em seu interior, caracterizando a "democracia" do partido em todas as suas fases posteriores. Na verdade, o PT nunca participou da luta armada contra a ditadura militar, e nem mesmo Lula teve uma posição ideológica definida durante sua vida política como líder sindical. Poderíamos dizer que a ideologia se infiltrou no PT para ganhar as eleições.
A esquerda brasileira se desintegrou ao longo desse processo, formando diversos partidos políticos, como o PCB de Luiz Carlos Prestes, o PCdoB de João Amazonas, o PSTU, o PCO e o PSOL. Outros se alinharam ao modelo europeu da Social Democracia, porém sem que a ideologia socialista fosse determinante em sua ação político-partidária, como é o caso do PSB, do PDT, do PPS e do PSDB, cujas lideranças surgiram à esquerda, mas migraram para o centro ao longo de sua história.
O Brasil nunca foi socialista, nem mesmo durante o auge dos governos petistas recentes. Isso se deve ao fato de a consciência político-ideológica do povo brasileiro ser fraca e desprovida de fundamentos teóricos. O apoio conquistado pelo PT no primeiro governo Lula foi decorrente de sua característica populista, sua linguagem simplória e os programas assistencialistas consolidados em sua primeira gestão de 2003-2006, o que lhe rendeu projeção mundial.
Ocorre que esses programas de "distribuição de renda" não modificaram o status da população miserável do país, pois não eram estruturantes e não permitiram a ascensão dessas pessoas "beneficiadas" para classes sociais auto-sustentáveis e estabilizadas como mão de obra produtiva. Eram apenas "bolsas de misericórdia", na medida em que distribuíam "benefícios" em troca de coisa nenhuma, nem mesmo a obrigatoriedade de capacitação para o trabalho.
Ao final de seu segundo mandato, no entanto, Lula, entusiasmado com a fama adquirida no Brasil e no mundo, acreditou ter se tornado imbatível e insubstituível no cenário político nacional. Lançou dois candidatos sucessivos e conceitualmente "improváveis": Dilma, à presidência da república, e Haddad à prefeitura de São Paulo. Ambos venceram as eleições, não por mérito próprio, pois se tratavam de figuras desconhecidas e despreparadas para o poder, mas por terem surgido à sombra do "grande líder populista" que era Lula! Ambos cometeram os piores erros administrativos atuando no poder.
Dilma, porém, não aceitou viver na sombra de seu criador, e tentou formar imagem própria como dirigente máximo do país. No entanto, as "marolas" da grande crise econômica mundial logo se tornaram "tsunamis" nas praias brasileiras, inundando os porões da nossa Economia. Ao invés dos instrumentos tradicionais de proteção, embasados nos fundamentos econômicos, Dilma e seu ministro Mantega decidiram inovar, seguindo o "mestre" Lula, e acreditando que o consumo interno garantiria a indústria nacional. Para estimular a produção e o consumo interno, Dilma reduziu juros, concedeu subsídios, baixou tarifas e impostos, desorganizando definitivamente o equilíbrio fiscal e as contas públicas.
O resto da história é de domínio público. O que não se discute, no entanto, é onde estaria a ideologia marxista nessa história toda, pois ela não existe! As bases ideológicas dos governos petistas não estavam na estatização da Economia, na Infraestrutura ou na Superestrutura, conforme concebidos por Marx e Engels, mas sim no populismo fanático de seus seguidores, no aparelhamento do Estado através dos movimentos sindicais e de seu peleguismo histórico. Esse aparelhamento compreendeu o inchaço da máquina administrativa através de sucessivos concursos públicos e da contratação de mais de cem mil funcionários em cargos de confiança (DAS - Direção e Assessoramento Superior), desprezando os servidores concursados, que não tiveram acesso a cargos de chefia.
O custo da máquina pública cresceu exponencialmente, enquanto a arrecadação de impostos despencava e a indústria desabava pela competição desigual com produtos importados. O Brasil entrava em processo de entropia, não por incapacidade da iniciativa privada, mas por incompetência do Estado em gerir as constas públicas e em estimular a Economia. Os seis anos seguintes de Dilma no poder foram catastróficos. Se tudo isso não bastasse, a imagem do PT como partido "Ético" se desfazia nos escândalos da corrupção. Inicialmente, o Mensalão expôs as entranhas de um partido que se sustentava nas propinas extorquidas de empresários igualmente corruptos. Depois, muito mais avassalador, veio o Petrolão e seus desdobramentos em quase todas as obras públicas de vulto em construção no pais, como as Usinas Hidrelétricas, as Refinarias de Petróleo, a Transposição do Rio São Francisco, tudo isso em meio à maior crise do petróleo em escala mundial, que levou a Petrobras à bancarrota e à humilhação internacional.
As eleições de 2014 se mostraram a maior farsa eleitoral de nossa história, colocando antigas práticas eleitoreiras em nível infantil se comparadas aos absurdos da manipulação da consciência coletiva perpetrados pelo PT e seus aliados. Na verdade, por trás de um falso idealismo, havia um poderoso esquema de corrupção e enriquecimento ilícito de todas as lideranças políticas e empresariais do Brasil, centradas no PT, no PP e no PMDB, mas irradiando-se pelas demais legendas.
Hoje, podemos afirmar que nenhum político pode ser considerado "inocente" nesse escândalo que ainda está em processo de levantamento da extensão dos danos que causou ao país. Ninguém se atreve a especular, sequer, onde terminará a "Operação Lava Jato", pelo simples fato de nem mesmo a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça Federal saberem onde vai dar esse poço de lama e podridão! E onde está a IDEOLOGIA? Por que, então, esses partidos ditos de ESQUERDA, capitaneados pelo PT e pelo PCdoB, afirmam ser GOLPE o IMPEACHMENT que se anuncia, inevitavelmente?
Muito além da ideologia, o que move esses marionetes da política nacional é a necessidade de sobrevivência e a tentativa de barrar as investigações antes que seja tarde demais. Esse é o VERDADEIRO GOLPE que está sendo praticado contra as instituições brasileiras! Até porque não faz sentido se falar mais em IDEOLOGIA nos tempos modernos. O conceito anacrônico de ESQUERDA e DIREITA não cabe mais no entendimento político-ideológico! O que seria, afinal, a esquerda? Com relação a que se poderia chamar "esquerda" ou "direita" a posição ideológica de cada parlamentar? Não estamos nas cortes do século XVIII, antes da Revolução Francesa! Não temos a Câmara dos Lordes e dos Comuns em nosso Parlamento!
A Humanidade precisa repensar suas ideologias para o momento atual, contemporâneo, sem os vícios e preconceitos dos Impérios, dos Burgos medievais, das Cortes Reais europeias! Estamos no Brasil, não temos as tradições imperiais nem vivemos o feudalismo, embora tenhamos herdado suas piores "habilidades"! É preciso reconstruir conceitos e estruturas de poder para que, daqui a vinte anos ou mais, uma nova Nação se recomponha dos escândalos da contemporaneidade...


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A Formação do Ser Humano

O grande desafio da contemporaneidade talvez seja construir o ser humano em dias tão conturbados e desprovidos de parâmetros orientadores. Em passado não muito distante, valores, princípios e moral eram critérios adequados para se construir a personalidade de um indivíduo. Hoje, talvez, nem mesmo o sentido dessas palavras seja conhecido.

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Educar é uma tarefa para poucos, mas em uma sociedade de sete bilhões de seres, não se pode pensar em individualismos. No entanto, não se constrói uma personalidade coletivamente. Cada pessoa é moldada por exemplos, oportunidades criadas e metodologia pedagógica. Talvez por isso o fracasso das novas gerações seja tão amplo e evidente. O mundo, tal como o vemos hoje, não seria um bom exemplo de sucesso coletivo para se espelhar pelas gerações futuras.
Mas o que digo? Que fracassamos? Que o mundo contemporâneo não é bom? Sim, exatamente isso. Os exemplos são fartos e abrangentes. Nunca o ser humano, vivendo em grupos, foi tão solitário. Conceitos de família perderam, de certo modo, o sentido, uma vez que os laços que aproximam as pessoas não são estabelecidos pelas necessidades de procriação e de formação de vínculos permanentes. Homens e mulheres interagem por sexo, não por amor.
Os recursos tecnológicos criaram barreiras quase intransponíveis entre pessoas, mesmo dentro de um núcleo "familiar". Os horários de aproximação já não fazem sentido, e o contato humano perdeu significado. Falamos e nos relacionamos por meio da tecnologia, e a afetividade derivou para outros "objetos" do mundo sensível, como animais de estimação. Isso, de certo modo, explica que o relacionamento entre "casais" se tornou sexual, sensorial, até mesmo "bestial".
Uma criança é coberta de atenções, como no passado. Mas seus interesses mudaram muito, assim como suas exigências. Não existe mais o afeto e o respeito entre adultos e crianças, que se tornaram símbolos de prepotência e dominação. Por isso, as crianças não aceitam mais a supremacia do adulto, e rejeitam sua autoridade. E isso ocorre no interior das "famílias", nas salas de aula e até mesmo no trabalho, tornando o processo de educar e formar muito mais complexo.
Os pais e as mães já não são mais a fonte do conhecimento, da sabedoria, da orientação pedagógica. Foram substituídos pelos meios de comunicação, sem censuras, e pelos recursos tecnológicos, que dominam o ambiente doméstico. Já nem se pode falar em "conflitos de geração", pois não se trata disso, pelo menos como o conhecíamos meio século atrás. Trata-se da "liberdade de aprender" sem o auxílio de um "mestre", de se educar em lugar de ser educado.
No entanto, essa liberdade extrema criou lacunas no aprendizado, pois a vontade de aprender já não motiva os jovens. Tudo está no "Oráculo tecnológico"! Não existem mais enciclopédias, os livros se tornaram obsoletos, a sabedoria dos adultos virou assunto sem importância, assim como os próprios idosos se tornaram incômodos dentro das famílias. A "educação", em seu sentido de respeito, desapareceu completamente, assim como a hierarquia.
O que virá depois disso ainda não se sabe, pois os próprios processos didático-pedagógicos estão sendo questionados pela sociedade, da mesma forma que os parâmetros curriculares. Uma espécie de estado anárquico tomou conta do processo educativo, restringindo o papel do professor, assim como a função dos pais se tornou questionável. Crianças de dois anos já afrontam a autoridade materna e paterna, exigindo que seus "direitos" sejam respeitados.
Ocorre que todas as sociedades humanas, animais, vegetais, são regidas por padrões de comportamento, por regras, por leis, por conformidades com aquilo que se padronizou chamar de "contrato social", os padrões tolerados por uma comunidade, seja ela qual for, para que os conflitos fossem solucionados de maneira pacífica e ordenada. Sem essas normas, não há convivência possível e, pior, não há desenvolvimento viável...
Para onde caminha a Humanidade? Qual será seu destino diante de tais transformações? A cada dia novas regras são abolidas em nome da "liberdade de expressão e de vivência". A cada dia se torna mais difícil a convivência entre pessoas, seja elas familiares, sejam vizinhanças, sejam no trabalho ou mesmo nas ruas. A violência urbana é fruto dessa "tolerância máxima", pois cada um pode se expressar como quer, sem risco de represálias.
A Formação do Ser Humano, assim como a dos animais e das plantas, obedece a um processo natural, lógico, racional, coerente, que deve seguir um curso onde a liberdade se concede aos poucos pelos que educam. Todas as sociedades que se permitiram a luxúria de conceder a liberdade plena antes que seus membros estivessem preparados, feneceram, pereceram, definharam, entraram em um processo de entropia, como as grandes civilizações do passado.
Educar não é dar a liberdade prematura para os jovens. Educar é soltar aos poucos as amarras até que cada um saiba suas próprias limitações e aprenda a sobreviver em um mundo complexo e em permanente ebulição. Quando essas amarras se soltam antes que o discípulo esteja preparado, ocorre o desastre, o acidente fatal, a desgraça. Por isso, educar não é tarefa para qualquer um, é para poucos. Por isso, também, a sociedade não é perfeita...
Rigor excessivo, assim como liberdade plena, não podem gerar bons frutos. O comedimento, a sabedoria de soltar os freios sem perder o controle da situação é o fator determinante do sucesso na educação dos seres humanos. A sabedoria da Natureza deveria ser nosso grande Mestre e instrutor. Lá, no mundo natural, estão todos os exemplos de que necessitamos para acertar sempre, de buscar o conhecimento e de responder às questões fundamentais...


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sexta-feira, 6 de maio de 2016

POBRE DEMOCRACIA BRASILEIRA...


Ainda nem terminou o processo de impeachment da presidente Dilma, e já sabemos que a equipe de Michel Temer terá quase o mesmo número de ministérios e será composta do mesmo perfil de colaboradores que caracterizou os TREZE anos do PT no poder: políticos em postos técnicos, onde se exigiriam especialistas, em troca de apoio nas casas legislativas do Congresso Nacional...



Isso nos leva a pensar se nosso povo seria tão pobre em nomes dignos e competentes para exercer funções públicas, e se teria valido a pena a mobilização nacional em defesa da Democracia e da Ética nas atividades púbicas... o que estaríamos ganhando nessa troca traumática de governantes? Qual teria sido, realmente, o custo político e econômico desse processo de impeachment?

Para se ter nomes como Romero Jucá ou Leonardo Picciani como ministros, não se observa nenhum ganho que possa justificar tamanho esforço da Nação brasileira. Para manter 28 ministérios em lugar dos 33 de Dilma, não se compreende por que trocar de presidente. Para humilhar um partido político e fazer o mesmo que ele fazia no poder, não é possível entender o enorme sacrifício exigido do povo brasileiro.

Ainda é prematuro para julgar a competência (ou não) de Temer para a imensa tarefa a que ele se propõe, mas o começo já terá sido lastimável e desanimador... não foi para isso que nos mobilizamos, colocando em risco as instituições, e causando tamanho desgaste entre os Três Poderes da República! Os próximos meses serão decisivos, mas sua equipe já começa na retranca e acuada por uma nova oposição devastadora! O PT na oposição, associado ao PCdoB, são adversários terríveis, avassaladores, capazes de arregimentar trabalhadores desempregados em uma luta sem tréguas, sem Ética e sem Princípios, em busca de mais uma "vitória de Pirro"!

A proposta não era essa. O próprio Temer chegou a afirmar que seu ministério seria composto de notáveis, e teria, no máximo, 15 ministros, sendo que três deles, os superministros, formariam o tripé da frente de combate: Economia, Infraestrutura e Projetos Sociais! O que foi feito dessa ideia, se o número de ministérios dobrou e, em lugar de nomes ilustres, teremos políticos comprometidos com o passado e com a corrupção, estando alguns deles até em processo de investigação criminosa pela Operação Lava Jato? Como pode dar certo uma equipe que já chega sob suspeita de envolvimento nas mesmas falcatruas do grupo que acabamos de alijar do poder? Como acreditar que essa nova "frente de combate" não estaria contaminada pelo vírus que devastou a classe política brasileira, antes mesmo que seus efeitos deletérios tenham sido completamente diagnosticados e combatidos?

O pior é que essa equipe já começa com a pecha de transitória, uma vez que nem sabemos se a equipe anterior irá voltar! E se, para ironia do destino, o grupo de Dilma retornasse e substituísse novamente todos os ministros, secretários, diretores de empresas públicas e autarquias, e os mais de 100.000 cargos comissionados entregues a afiliados dos partidos da "base aliada"? E se esse "presidencialismo de coalizão" retornasse com toda força e todo ódio característico do Partido dos Trabalhadores, destruindo definitivamente os alicerces de nossa frágil Democracia?

Como não pensar nessa possibilidade, se esse governo que começa a se estruturar já se assenta em bases tão insólitas e duvidosas? Como acreditar que o que restou dessa base parlamentar, mesmo contaminada pela corrupção, conseguirá levar adiante as reformas políticas, previdenciárias, fiscais e sociais, indispensáveis para que o país volte aos trilhos e ao caminho do desenvolvimento econômico e social?

Poucas são nossas expectativas hoje, depois da divulgação dos primeiros nomes de um ministério que já nasce e se instala sob a suspeição de incompetência, do casuísmo político e dos vícios da velha república que eles pretendem sepultar. Que novidade haveria em ter Blairo Maggi, o "Rei da Soja", no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento? Mais provável é que esse "novo" governo se arraste pelos próximos dois anos que restam de mandato, levando ladeira abaixo a nossa Democracia e a nossa Economia que já se encontram em frangalhos.

POBRE DEMOCRACIA BRASILEIRA...

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quinta-feira, 10 de março de 2016

TRATAMENTO DE CHOQUE


Restam-me as memórias e as fotos desse passado que, se não foi glorioso como imaginara, teve momentos alucinantes de energia, vibração, emoções e prazer.




Meu corpo estava estendido na maca, no meio de um salão, cercado de aparelhos e pessoas estranhas, discutindo meu estado de saúde precário. De alguma forma, eu olhava aquele corpo se contorcendo de dor e não me reconhecia nele. O que acontecera? Por que eu estaria lá? Onde estariam meus amigos? A dor era insuportável... uma prensa esmagava os músculos de meu coração e quase me impedia de respirar. Não conseguia, sequer, pedir ajuda, saber o que houvera...

Veio-me à memória uma correria infernal, eu dentro de um carro, percorrendo a orla da praia no banco de trás de um carro, com uma pessoa pressionando meu peito em um vai-e-vem alucinado e desesperado para me manter respirando e forçando meu coração a bater, apesar da dor. Alguém batia na lataria do carro, enquanto o motorista buzinava energicamente, pedindo passagem. De repente alguém falou, desconsolado: "ele apagou... parou de respirar..." e os movimentos de ressuscitamento se tornaram mais frenéticos... eu estava consciente, ou pelo menos ouvia essas palavras. Para meu desespero, agora eram esses esforços para me manter vivo que estavam me sufocando.

Chegamos a um pronto socorro e fui retirado do carro e colocado em uma maca. Alguns paramédicos cercaram meu leito e disseram que eu deveria ser levado para um hospital. Colocaram-me em uma ambulância e logo começaram a raspar meu peito para a colocação dos eletrodos. Mas a lâmina estava cega e me pareceu enferrujada! Logo, o sangue escorria pela minha pele ferida, diante da indiferença de três paramédicos, que conversavam animadamente sobre assuntos fúteis. Mas eles não conseguiam fazer o eletrocardiograma e a ambulância não saía para o hospital.

No meio de meu sofrimento lembrei-me de uma cena de um filme de guerra de Robert Altmann, chamado "Mash", uma paródia em que a equipe médica operava um soldado, indiferente à dor daquele moribundo, enquanto conversavam animadamente, debatendo as "qualidades físicas" de uma bela enfermeira. Senti-me diante da mesma indiferença. Finalmente desistiram do exame e seguiram para o hospital. Eu continuava sem reações... fui colocado em um grande salão onde meia dúzia de enfermos agonizavam em seus próprios leitos. O hospital não tinha UTI, que fora interditada por contaminação e infecções, comuns nesses estabelecimentos brasileiros... A noite se arrastava naquele salão de hospital, sem as mínimas condições de atender a um infartado. No som ritmado das gotas de soro escoando pelas minhas veias eu não tinha mais noção da hora, nem do que acontecera naquele dia fatídico. Aos poucos, porém, a dor se abrandou e meu pensamento vasculhou aquele dia interminável em busca de um entendimento do que se passara.

Eu acordara muito cedo naquele dia, pois teria que levar um indígena para efetuar um levantamento fundiário de um terreno à beira-mar, em Trancoso. Como de hábito, tomei café da manhã, peguei minha bicicleta e pedalei por 10 km até a sede da Funai em Porto Seguro. Chegando lá, o índio já me esperava, impaciente pelo trabalho que iríamos realizar. Montei na caminhonete e seguimos por horas numa estrada de terra. Atravessamos uma porteira e seguimos por entre árvores e chácaras até que, em dado momento, a estrada se transformou em um areal branco e interminável. Havia trechos em que eu pensei em desistir, pois o veículo serpenteava quase atolado na areia fina e profunda. Com muito esforço chegamos no local. Durante algumas horas percorremos o terreno com meu GPS, registrando o que seria o limite da propriedade. Passamos à beira-mar por uma praia lindíssima e deserta. Tive vontade de tirar a roupa e mergulhar naquele mar tranquilo e limpo, mas o dever me impediu de fazê-lo. Voltamos à Funai, devolvi o carro e peguei minha bicicleta. Mais dez quilômetros, e cheguei em casa, exausto, mas feliz de meu dever cumprido.

Subi as escadas e, ao chegar ao lado da cama, uma intensa dor no peito me atingiu como um forte soco. O peito parecia não poder conter meu coração, e este se espremia, querendo explodir. Nunca sentira tamanha dor! Logo percebi que estava sofrendo um infarto, mas não me apavorei de imediato. Acomodei-me na cama, sentado e apoiado nos travesseiros, procurando me acalmar e respirar compassadamente. Mas a dor aumentava e minha respiração se tornava difícil. Lentamente, me arrastei para fora da cama, vasculhei a mochila e peguei meu celular. Com grande dificuldade tentei encontrar o telefone de um colega que pudesse me socorrer. Não conseguindo falar, mandei uma mensagem: "Acho que estou tendo um infarto. Preciso de ajuda"! Durante uma hora me contorci na cama, mas nenhuma posição aliviava aquela dor imensa, insuportável. Porém ninguém me socorreu.

Lembrei-me do síndico do condomínio. Não poderia gritar, que a voz não saía do meu peito. Mas tinha o telefone dele e mandei a mesma mensagem. Em menos de três minutos ouvi o barulho de chave na porta e alguém entrou, subiu as escadas, verificou minha situação e saiu correndo. Voltou em poucos minutos, que pareciam horas, acompanhado de três vizinhos. Fui levado escada abaixo e colocado em um carro. Eu não enxergava as pessoas, não conseguia falar nenhuma frase inteligível, e estava quase desmaiando. O carro saiu em desabalada carreira morro abaixo.

Pela manhã, ainda no hospital, o médico me disse que eu estava estabilizado e necessitava ser removido para outra cidade, para um hospital especializado em cirurgia cardíaca. Ele se foi e eu fui transferido para um quarto, acompanhado da minha colega, que havia chegado ao hospital no meio da noite. Enquanto eu esperava por uma transferência, um plano de remoção se arquitetava entre minha colega, minha mulher e minhas filhas, a 1.300 km dali. O dia transcorreu lentamente... nada acontecia ao meu redor. Embora a dor tivesse desaparecido, sentia que minha situação era gravíssima e eu estava perdendo horas decisivas para ser socorrido e tratado adequadamente. Mas nada poderia fazer. Tudo dependia dessas providências. Tratava-se de uma operação logística complexa e onerosa. A noite chegou, e, com ela, a notícia de que eu seria transportado por uma UTI aérea.

Minha filha chegou e já me encontrou na pista do aeroporto, para onde eu fora levado por outra ambulância, desta vez sem as cenas de horror que eu protagonizara na noite anterior. Vinte e quatro horas em que minha vida estivera por um fio, desperdiçada em um local cuja beleza se esvaíra diante de meu drama pessoal. Colocaram-me na aeronave, onde um médico e um enfermeiro me aguardavam. Fui acomodado da maneira que foi possível naquele mini-avião. Levantamos voo e a viagem transcorreu para mim como um hiato no tempo de minha existência. Não dormi nem um instante. Meus pensamentos se sucediam sem uma ordem razoável e coerente, mesclando o passado de aventuras e um futuro incerto ou improvável, com limitações que eu sempre temera delas me tornar vítima e escravo.

Mas o amor e o carinho dessa família maravilhosa me permitiram superar esses fatos inenarráveis e sinalizar para uma nova vida que, se não teria as emoções intensas das montanhas, das florestas, dos rios e dos mares que conquistei, teria o tempo de reflexão de que necessitava para colocar ordem nas coisas que vivi. E assim permaneço presente nesse planeta, sem nenhum brilho pessoal, mas com a eternidade do tempo que me resta para encerrar minha missão. Sou grato, é claro, por todos aqueles que me querem bem, que me têm carinho, que a mim dedicam um amor que nunca tivera tão presente nos intensos anos que passei afrontando inimigos inexistentes e me defrontando com meus próprios demônios que julguei ter conquistado. Restam-me as memórias e as fotos desse passado que, se não foi glorioso como imaginara, teve momentos alucinantes de energia, vibração, emoções e prazer.

Afinal, não é apenas para isso que vivemos? Portanto, como disse o poeta, "confesso que vivi"!

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